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Khanimanbu, Moçambique

ines-lopestexto, fotos e vídeos Inês Lopes
geral@w360.pt

 Maputo, Moçambique


A aventura africana da Inês Lopes continua na África do Sul:

cropped-W_MINIATURA.pngÁfrica do Sul, de f(/r)ugida!

Visitei Moçambique com visto de turista, mas na verdade o motivo da viagem prendeu-se com a família. E, talvez por isso mesmo, estas 3 semanas tenham sido muito mais do que umas férias num sítio paradisíaco.

A minha irmã e o meu cunhado (espero que não se importem que os mencione, já que sem eles nada disto teria sido possível) trabalham e vivem em Moçambique há cerca de 5 anos. E depois de tantas viagens a Portugal, tinha chegado a hora de sermos nós, um grupo de 4 (fa)melgas já feitas e criadas, a perder o medo e visitá-los na terra onde eles escolheram viver as suas vidas em conjunto.

Deste país, conheci o sul. Maputo e Inhambane foram as províncias onde passamos mais tempo e, tendo o Centro (Beira) e o Norte (Nampula, Pemba) muitas diferenças e histórias, assim como o interior (Tete, Lichinga) e as ilhas (Ilha de Moçambique), estes mostraram-nos já um conjunto de realidades bem transversal e sugestivo do que é a essência de Moçambique.

Podemos começar então por dizer que, como a grande maioria dos países africanos, este é de facto aquilo a que muitos chamam ‘país de contrastes’. Ao abismo entre o extraordinário da Natureza e a miséria da condição humana, só acrescentaria o ‘humor’. Moçambique, pelos meus olhos, é um país de (profundos) contrastes, mas com imenso sentido de relativização e de ligeireza. Talvez seja essa a sua principal característica e o que o difere dos restantes – uma capacidade de ‘se rir de si próprio’ contagiante e de tom quase infantil, que nos faz querer andar para a frente de forma auspiciosa perante uma rotina ainda por vezes tão negra.

Maputo

Maputo. A cidade, pois da província apenas percorri, e de passagem, Matola e Ressano Garcia e pouco mais vi que miséria e lixo (salvaguardando ainda assim o que haverá de bom e interessante nestes lugares, mas que não conheci – ou não fosse este um país de contrastes). E contudo, minto: pois conheci ainda Marracueche, e nele as bonitas praias de Macaneta. Agora sim, a cidade. Capital nas estruturas e no ritmo, na diversidade de pessoas e de zonas, apresenta-se tão desorganizada e descuidada como bipolarizada. O peso dos grandes investidores (China, Japão, Portugal, África do Sul, Índia) faz-se sentir e apenas o estatuto do Governo os equivale no poder e autoridade. Na cidade existem essencialmente 3 tipos de pessoas: o ‘branco’, estrangeiro formado, endinheirado ou empoderado; o ‘preto’, povo de baixa instrução, matreco (oportunista) ou artista/vendedor ou empregado; e o ‘moçambicano’, o senhor que manda e gere a República de Moçambique, não necessariamente formado, mas de certo emponderado e endinheirado, político ou polícia ou bancário. Contudo, parece-me começar, e bem, a emergir um quarto tipo: o ‘jovem moçambicano’, aquele que, não sendo necessariamente só de famílias ricas, arranja forma de continuar a estudar  e desenvolve competências que o preparam para um dia mais tarde vir a ter uma posição profissional (mais) igual ao do ‘branco’ e ter um papel social mais consciente e ativo. Se não fugirem todos para a Europa, ou ‘desistirem’ no caminho, talvez daqui a duas gerações estes jovens se ‘façam ouvir’ e ganhem lugar, através de um respeito agora conquistado, como agentes modificadores internos do tecido social e profissional deste país – que deles bem precisa.

Nas ruas, a contrastar novamente, vemos paisagem citadina engomada, do mais moderno europeu, como logo a seguir o shopping ou o casino dá lugar às barracas intermináveis da Vodacom ou da Coca-Cola – as únicas com direito a pintura e término de obra, num mar de cimento, barro e capim. Tal como uma grande metrópole, divide-se em bairros degradantes (sem água potável, esgoto ou luz) e zonas mais elegantes (hotéis, embaixadas e condomínios fechados), com direito a praia na baía e marginal pela Costa do Sol, jardins (Tunduro, dos Professores, dos Namorados) e mercados (do Peixe, Municipal, Janet) cheios de tons castanhos, verdes e alaranjados, feiras (FEIMA) agitadas com marrabenta (música tradicional), capulana (tecido muito usado no vestuário) e matapa (comida típica), museus tímidos e igrejas diversas, restaurantes para todos os gostos e hotéis chiques na Polana.

Maputo

Maputo

Maputo

O pormenor e a conservação são conceitos ainda muito estrangeiros, pelo que a cidade nutre que as vistas se façam acompanhar de menos lixo e mais pintura. O trânsito, por outro lado, é um fenómeno: para além da troca dos sentidos, numa confusão que aguça todo o tipo de engenhos, a tranquilidade reina de um forma surpreendentemente eficaz. E o Metical (moeda oficial) pode subir cada vez mais, mas o chapa (carrinha da marca Nissan muito usada como transporte público, mas de cariz particular) nunca parece estar menos lotado! Um reparo ingrato, numa cidade em que a rede de transportes públicos (autocarro, comboio, metro) é ainda praticamente inexistente, mas o passeio não chega para acolher as largas centenas de BMWs e Mercedes com matrícula DC (corpo diplomático) que tanto gritam por novos parques de estacionamento. Paralelamente, e apertando as ruas, cantam ainda as tchovas (carrinhos-de-mão grandes carregados de fruta, peixe seco ou ferro-velho) e as tchopelas (vulgo tuc-tuc em Portugal) extra adornadas da Sumol ou da Bosh, numa animação que primeiro se estranha, mas depois de facto se entranha.

Maputo

Maputo

As crianças de farda azul clara vão a pé ou no chapa escolar para a EPC (Escola Primária Completa) e os adolescentes de farda branca para a Escola Secundária. Os jovens que seguem para a universidade, já seguem com a sua identidade e por diferentes caminhos. O machibombo (transporte escolar público) não chega para todos e, normalmente, leva a minoria que ‘sobra’ para as escolas Portuguesa, Francesa ou Americana.

De política não se fala no café. Samora Machel (primeiro Presidente da República do país) é o único nome consensual e identidade bem expressa por toda a cidade em forma de monumento, nome de rua ou de edifício. Nos 40 anos ainda tão verdinhos de democracia moçambicana, a diplomacia e a liberdade de expressão ainda se confundem um tanto ou quanto com o medo e a intimidação. Por todo o lado da cidade, o partido vencedor (FRELIMO) exibe ostentosamente o seu líder e atual presidente Filipe Nyusi, enquanto mais a norte Afonso Dhlakama não se faz esquecer através do seu ruidoso e bélico partido (RENAMO), o maior da oposição. O povo, querendo é paz e fatigado de tiroteios trimestrais ali na curva, ordeiramente finge que não há mal em não poder aproximar-se, literalmente, da Presidência da República e atravessa a rua de modo a ficar longe do passeio carregado de metrelhadoras. A foto ou o vídeo são assim filhas do mesmo mal, pelo que não convém arriscar muito quando por perto de assets, materiais ou humanos, do estado.

Inhambane, Moçambique

Mas não esqueçamos que aqui o calor é sério e húmido e o dia começa às seis horas da manhã: o trabalho é para se ir fazendo e, na terra do mosquito, o stress não ajuda. O cumprimento desapressado é algo importante e o negociar torna-se uma arte à medida que se desenrola. Em Changana (dialeto usal da província) ou em Português, o importante é falar de sílaba bem aberta e deixar o ritmo da conversa dar espaço ao sorriso antes escondido pela timidez e desconfiança pelo desconhecido. E, voilá, eis um dos encantos de Moçambique – a amabilidade das pessoas.

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Passemos enfim para Inhambane – terra apelidada por Vasco da Gama de ‘de boa gente’. Província turística de coqueiros a perder de vista e praias que não se querem nunca deixar. Mas comecemos pelo início, no caminho para o paraíso. Porque as mangas e cajus na Macia, as Lagoas de Quissico e o carvão em Chissibuca, não são coisa de beleza diminuta, e nos longos caminhos, largos tanto de estrada como de horas, todas estas relíquias enganam o cansaço e afugentam as visões do vasto mato, que de braço dado com a via que mais une Moçambique, engole tanta palhota e tanta gente. Gente que, em oposição à paupérie nauseabunda e infértil dos arredores de Maputo, aqui é pobre, mas não miserável. O povo veste-se de humildade, e à semelhança de Portugal nos anos 60 em muita bonita aldeia, na machamba (horta) se trabalha e da machamba se vive.

Inhambane, Moçambique

Inhambane, Moçambique

Inhambane, Moçambique

Inhambane, Moçambique

Em Inhambane, na cidade, também o traço de limpeza distancia-a da capital. E embora tudo o resto se mantenha, a rasa baía cheia de amêijoa, flamingo e mangal enche a cidade, na qual de tudo se encontra sem ser preciso nenhum prédio ou arranha-céu.

Inhambane, Moçambique

Inhambane, Moçambique

O preceito policial mantém-se e, para além da corrupção à entrada de cada vila, aquando da observação das velocidades pela polícia de trânsito, de branco, eis que os PRM (polícia republicana), de cinza baço, não abandonam a frente da sede da FRELIMO da cidade, nem os seus compadres de verde-tropa, da polícia municipal, fiéis companheiros da conversa fiada.

Mas falemos de coisas que nos tiram o fôlego pela positiva: a praia da Barra, do Tofinho e do Tofo. São tipo droga, da que vicia: a água na qual nunca custa entrar, o areal tão fino que assobia, o espaço que vislumbra o deserto, o vento que nunca deixa o sol queimar demais, e o som do mar que nos acorda ou nos deita de tão perto que está da varanda. Aqui da praia e na praia, tudo acontece: vendem-se rádios feitos de coco e pulseiras de rabo de elefante, assim como se negoceia o peixe serra de 20kg e o polvo cabeçudo apanhado no dao (barco típico) de manhã. O importante é ser assertivo no ‘não’, quando o décimo quarto vendedor já não vende nada que queiramos ao ponto de apenas ‘pedir’.

‘Papás’ e ‘mamãs’ locais – por vezes descalços por convicção em hábito ainda tão incomum – preenchem os gaps linguísticos e fortalecem as ligações entre o investimento sul africano e os turistas aventureiros, sempre ansiosos por mergulhar, surfar ou participar na banga (festa). E se na sexta, o modo festivo corre nas veias moçambicanas logo a partir das 15 horas, da mesma forma, quase autónoma, o domingo dita o ritual sagrado de louvor ao Senhor, quer o de quatro sílabas quer o de três, que carece da melhor roupa e de todo o tempo da manhã.

Por fim, e já em tom de regresso, conhecemos Laura, a filha do mecânico que muda pneus derretidos pelo asfalto ardente. Irmã mais velha de Salézio e de Amélia, ainda bébé, Laura lembra Luís, amigo feito na praia, no que toca à paixão pela brincadeira. Tanto um como outro, seja com uma câmara de ar já descartada no mato, seja com um carro feito de arame e latas da premiada M2 (cerveja moçambicana) no areal, não sabem o que é ‘estar parado’, assim como muitas outras coisas. Sabem que o mar é divertido e que os bebés são fofinhos, mas quando perguntado, 6×2 é 14 e o seu nome escrito no chão não é familiar. E, vióla, eis um dos desencantos de Moçambique – a criançada perdida e esquecida por aí.

Inhambane, Moçambique

E assim, acabamos como começámos, com chuva a abençoar, não só esta terra que tantos cheiros dá às histórias, mas também esta viagem desconcertante, que de tanto choro esvazia a alma para logo a seguir poder enchê-la de novo.’

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*Obrigado, Moçambique (Khanimanbu, Moçambique)

Maputo
 Moçambique (capital)
 Português
1 178 116 hab. (2007)
 Metical (MZN)
 GMT+2
Europeias, 2 pinos
+258
112
O clima é tropical, sendo muito quente durante todo o ano. No entanto entre maio e outubro o clima é mais seco contrastando com o período muito húmido com fortes chuvadas registado entre novembro e abril.

O visto de entrada em Moçambique é obrigatório e custa cerca de €40 

Não há vacinas obrigatórias, no entanto aconselha-se a utilização de repelente para evitar as picadas de mosquitos que transmitem doenças como a malária
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