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Ganhei uma vida nova com o voluntariado que fiz em Cabo Verde

texto e fotos Ju Costa
geral@w360.pt

Praia, Cabo Verde

Diz-se por aí que um dos requisitos para se ser voluntário é “dar sem receber”. Eu dei parte de mim e tive a sorte de receber uma vida nova.

Desde jovem fui-me envolvendo em projetos sociais e de voluntariado, mas havia uma vontade inexplicável de fazer mais e ir cada vez mais longe. Sonhava dar o meu tempo e dedicação num local onde realmente sentisse a utilidade dos conhecimentos básicos que nos são incutidos em Portugal.

E começa assim a minha história…

Tive a certeza que os acontecimentos da vida vêm no tempo certo quando o GAS’África – Grupo de Ação Social em Portugal e em África tropeçou na minha vida sem eu estar a contar.

Ainda a terminar o curso de Terapia Ocupacional, fui conciliando todas as tarefas do dia-a-dia com a formação e atividades que a permanência no GAS’África me exigia. Foi um ano de formação de auto e hétero-conhecimento que me fez repensar na minha posição em relação aos outros e ao mundo. Neste ano recebi o melhor presente da minha vida: a minha comunidade GAS’africana e a oportunidade de fazer missão.

Em julho de 2014 parti com a Marta, o Digas, a Luísa, a Carlota e a Lúcia para a Cidade da Praia, em Cabo Verde.

Todos os anos, as missões são previamente preparadas consoante o local de destino e necessidades identificadas e, normalmente, quando os voluntários estão já no terreno, é preciso reformular o plano de atuação de acordo com as propostas que vão chegando.

Nós tivemos a sorte de ser recebidos por uma comunidade muito envolvente e que, ao mesmo tempo, nos permitiu conhecer bem o lado menos turístico de Cabo Verde.

Durante dois meses vivemos em Achada Grande Frente, onde atuávamos diariamente dentro da comunidade e ainda num espaço constituído por jovens voluntários da zona – o Pilorinhu, que tinha a finalidade de dinamizar atividades socioeducativas para diminuir a permanência do tempo que as crianças passavam na rua.

A nossa intervenção passou por apoiar na organização das atividades do centro, dando formação aos voluntários sobre gestão de tempo, competências organizacionais, relações interpessoais e ainda envolvendo a comunidade em diversas formações mais direcionadas para a saúde. A intervenção com as crianças que frequentavam o Pilorinhu envolveu essencialmente atividades de Direitos Humanos, Relações Interpessoais e Resolução de Conflitos, uma vez que se verificaram ser os temas mais necessários a abordar devido às características culturais da população.

Durante os dois meses de missão colaboramos ainda, diariamente, com o Instituto Caboverdiano da Criança e do Adolescente (ICCA), constituído por centros com diferentes objetivos de atuação. A intervenção com as crianças envolveu objetivos muito semelhantes aos do Pilorinhu e foi ainda possível organizar formação com os técnicos da instituição.

Todo este trabalho desenvolvido permitiu que se verificassem evoluções na comunidade de chegada, mas essencialmente que percebêssemos as mudanças individuais na nossa comunidade de 6 pessoas totalmente diferentes.

A Marta, a nossa mamã, com a sua ponderação, permitia o equilíbrio do grupo. Eu, com a minha organização, mantinha cada coisa no seu lugar. O Digas, com a sua vontade de fazer sempre mais, dava-nos força para continuar todos os dias. A Luísa e a sua música suportavam-nos a todos nos momentos de maior saudade. A Carlota, com o seu carinho e calma evidentes, deixava-nos seguros de tudo o que nos propusemos a fazer. A Lúcia, com a sua alegria e amor constante para distribuir, dava a forma de coração à nossa comunidade.

Os meus ermãos foram os melhores que poderia ter pedido. Todos com as suas características tão diferentes, mas que completaram a nossa comunidade com o melhor de si.

Comigo ficaram as recordações das pessoas, abraços, caras, nomes, sítios, comidas, cheiros, estrelas, momentos que não se descrevem,… Foi com todas estas pessoas que me foi possível aprender a amar independentemente da natureza, cor, cultura, crenças e hábitos.

Ao regressar a Portugal, os pilares que sustentam o GAS’África – Serviço, Comunidade, Oração e Simplicidade – nunca me tinham feito tanto sentido e aí percebi a necessidade de os levar comigo e os aplicar no meu dia-a-dia em Cabo Verde, em Portugal, ou em qualquer outra parte do mundo.

Hoje ainda continuo a frequentar o grupo, renovando todos os anos os meus pilares e, desta forma, fazendo parte de comunidades que sempre serão parte de mim.

Esta foi a melhor experiência da minha vida, que mudou a minha vida, as minhas relações com as pessoas e a forma de eu olhar para o mundo. Voltava a repeti-la, todos os dias, com as mesmas pessoas.

Tenho regressado algumas vezes à Praia para aliviar as saudades e regresso sempre sempre com o coração mais apertadinho. Ganhei tias, irmãos, amigos, sobrinhos e até afilhados. São a minha família de África

 

Neste momento, estou a abraçar vários projetos, tanto em Portugal, como em Cabo Verde. Tenho a certeza que essas histórias serão escritas num próximo capítulo.

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