Discurso Direto

sara-reistexto e fotos Sara Reis
geral@w360.pt

Malang, Java, Indonésia

Gostava muito de te poder dizer que parto de coração cheio, tal como muita gente que escreve artigos sobre o seu exchange year ou gap year.

Nove meses e uma semana de Indonésia, cinco semanas de Singapura/Vietname/Camboja/Tailândia/Laos e Malásia, deixaram-me com o coração em pedaços ou aos “buraquinhos”.

Vivi numa cidade onde as mulheres andavam na rua cobertas pelo seu hijab, onde cinco vezes por dia ouvia o adzan, onde se comia arroz todos os dias e em todas as refeições, as casas de banho eram a maioria das vezes um bacio no chão, os passeios não existem (a maioria das pessoas anda de mota e não a pé) e o código da estrada a maioria das vezes também não.

Era a única portuguesa, a única europeia, latina numa sala de aula com mais sete estrangeiros, num lugar em que comer pão e café pela manhã era estranho, assim como ouvir alguém falar inglês, em que ir às compras é tudo “aos mil”, em que a praia fica a duas ou três horas de mota da cidade.

Estudei a língua da Indonésia. Tive que me esquecer que era portuguesa nas aulas porque algumas das palavras eram as mesmas, embora a pronúncia, o significado e o método de ensino fosse totalmente diferente da Europa.

Comecei a gostar de tempe (uma espécie de bolo de soja frito), de martabak manis (uma especie de panqueca ao estilo indonésio), de pitaia (um fruta), de whitecoffee, de Tea Tarik, de usar os sarung como as Indonésias usam e que andar de Gojek (espécie de Uber, mas que utiliza a mota) é espetacular (sabe bem sentir o vento no rosto).

Vivi com raparigas indonésias, uma vietnamita, duas raparigas do Madagáscar e uma sul-coreana, elas (estrangeiras) estudavam comigo na universidade.

Com a sul-coreana criei laços fortes, talvez porque os nossos países não são assim tão diferentes como aparentam, bem como a vida de cada uma de nós e das nossas famílias.

Aprendemos as duas mais sobre os países de cada uma de nós, a língua, a cultura e esta barreira entre ocidente e oriente, que tanto consegue ser complicada como fantástica.

Compreendemos que ainda que ela exista, porque viajamos juntas pela Indonésia, pelo Sudeste Asiático, também porque conhecemos imensos viajantes que estranhavam encontrar uma portuguesa e uma sul-coreana juntas. As amizades fortes conseguem superar isso.

Nem sempre é fácil, é verdade, a maioria das vezes eu estava sozinha no meio de indonésios ou coreanos, não percebia nada do que diziam, sentia-me estranha no meio deles, mas ao mesmo tempo de todas as vezes que isso aconteceu, eles ensinaram-me mais sobre a língua e a cultura deles.

Amizade, força de vontade, curiosidade, paciência e respeito.

São estas as palavras mágicas deste ano.

Mãe, pai, mano, amigos portugueses e do mundo que me tem acompanhado, eu sei que isto tem sido de doidos, desde que me meti no avião o ano passado para vir viver para a Indonésia, depois acabei por ir viajar também pelo Sudeste Asiático, voltei à Indonésia por uns dias e agora parto para vocês.

Sei que tem sido difícil para vocês verem-me tão “pequena”, tão “longe”, sem portugueses por perto, em países de 3º Mundo, a presenciar quem sabe realidades ou dificuldades ou aventuras, que isso deixa o vosso coração sempre alerta cada vez que há noticias ou que eu não dou noticias.

Percebo que seja complicado, no entanto, quero continuar a pedir-vos para continuarem a acreditar em mim, para continuarem aí, para serem pacientes porque não é só a mala que vem mais pesada, ela engordou, porque “ela voltou agora da Ásia e está a comer arroz com pauzinhos”, porque “de volta e meia, balbucia palavras que não entendemos”.

A vossa vida continuou, a minha também.

Não me sinto nenhuma super-heroína ou melhor que alguém, porque estive fora.

Sinto que desmistifiquei algumas coisas em mim, que tenho de trabalhar mais para me tornar na pessoa que quero ser e enquanto isso, tentar viver um dia de cada vez.

Sinto que sou portuguesa, sou europeia, mas agora também sou um bocadinho asiática e não estranhem se alguma vez os meus olhos brilharem cada vez que se fale na Ásia.

Hoje, entro dentro dos aviões  triste porque deixo para trás pessoas que foram que família, um país que foi lar e um continente que prometo regressar (quem sabe um dia!). Ao mesmo tempo, parto com a consciência de que, ainda que não tenha feito tudo o queria, fiz mais do que imaginei e estou grata por isso.

Porque hoje, não tenho mais medo de baratas, de formigas, de ver espetadas que ao invés de carne de porco ou vaca têm escorpiões ou cobras, de sentir nojo ao ver pessoas com talheres na mesa a comer arroz com as mãos e de tantas outras coisas.

Hoje, tenho medo que os meus sonhos não sejam tão grandes quanto a minha ambição de os tornar reais e de os conquistar.

Ásia, levo-te gravada não só nos pés, mas no coração todos os dias e para Sempre. Obrigada!

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Discurso Direto

texto e fotos Mónica Sofia
geral@w360.pt
 

Ho chi Minh, Vietname

Olá a todos, estou no Vietname há seis meses e esta é a história da minha aventura asiática.

Vim para o Vietname com o programa AIESEC com o propósito de ensinar inglês, conhecer e viver a cultura vietnamita. Vivi três meses em Ha Long e mais três meses em Ho chi Minh, no sul do Vietname.

O Vietname é um país de muita história, alegria, tradições e pobreza. O nível de vida é baixo, a diferença entre ricos e pobres é catastrófica e a dita classe média não existe. Nos últimos anos o país tem-se desenvolvido para benefício do turismo. Estão a ser construídas mais e mais infraestruturas com o propósito de aumentar o turismo e colocar o Vietname no mapa dos destinos asiáticos mais desejados.

O choque cultural sente-se de imediato, mas nada que não passe depois de umas horas. O que reparei assim que saí do aeroporto foi no calor abafado e húmido que se fazia sentir. E era fim de Outubro. No norte do país existem quatro estações do ano, tal como em Portugal. No sul apenas existe o verão e o inverno. No inverno não faz frio mas existem chuvas intensas que criam inundações, é a chamada rainy season.

O trânsito é de loucos, uma autêntica selva de motos. Os sinais não são totalmente respeitados, nem os semáforos, nem o sentido da estrada. O melhor é sempre estar com atenção, até no passeio… sim, eles também conduzem as motas no passeio.

Quanto ao ensino, pelo que percebi no ano passado, o estado vietnamita decidiu colocar o inglês como obrigatório em algumas escolas. Sem qualquer tipo de experiência na área, decidi embarcar nesta tarefa de ensinar inglês. Confesso que foi um pouco o que estava à espera: turmas impossíveis com crianças a serem crianças e turmas bem comportadas. Existe muita curiosidade e vontade por parte dos adolescentes e adultos em aprender inglês, mas existe uma falha enorme no que toca a cultura geral. Resumindo, foi uma boa experiência, não só consegui ajudar como aprendi a lidar com vários tipos de pessoas. E, sem dúvida, melhorei o meu à vontade quando falo para uma plateia.

Há Long é onde podem visitar uma das maravilhas naturais do mundo, Ha Long Bay – a baía dos dragões. É constituída por mais de mil ilhas que fazem uma vista esplêndida e de cortar a respiração. Fica a cinco horas de Hanoi de autocarro e um bilhete deste mesmo autocarro chega no máximo aos €4.

Existe uma montanha perto do mar que se pode escalar em meia hora e no topo pode aproveitar das vistas mais bonitas de Há Long. Uma vista panorâmica para a cidade e para a baía.

Existem ainda karaokes em todas as esquinas, todos eles com as suas luzes berrantes, mercados de rua onde são vendidos vegetais e carne acabada de cortar na bancada, com o sangue ainda a escorrer para o chão. Não é um local para pessoas sensíveis, de todo. Se estiver por aqueles lados visite também o Night Market, tem imensas coisas tradicionais e não se esqueça de regatear. Uma coisa que aprendi no Vietname é que tudo é “regateável”, TUDO! Se lhe pedirem 20 dólares (a segunda moeda utilizada no país) diga sempre não e diga metade do preço, eles lá se riem e dizem que não suba um bocadinho e vá jogando assim, afinal de contas é um mercado direcionado aos turistas e os preços são sempre exagerados. Se achar que vai pagar muito pelo que quer, simplesmente vá embora. A probabilidade de virem atrás de si é de 99%. Prepare-se para ouvir a mítica frase “same same”/ “same same, but different”. Penso ser uma expressão de todos os países asiáticos, mas acreditem quando digo que no Vietname é o prato do dia.

Se vai a Há Long tem de fazer a voltinha de barco. Existem duas hipóteses, ou apanha um cruzeiro ou apanha o ferry que vai para a ilha Cat Bá. No meu caso fui de ferry, paguei por volta de €3,2 e a viagem foi incrível. Passei no meio da baía e visualizei toda a beleza que ela proporciona. Aquando da chegada à ilha basta apanhar um autocarro por €2 e sair no centro da ilha onde há restaurantes, cafés, hotéis e atividades náuticas. Passei duas noites no hostel Bungalows e recomendo imensoooo! Tem uma vista brutal.

Quando vivi em Ha Long percebi que os vietnamitas são bastante curiosos. Estava a viver numa região perto da baía e sempre que saía à rua virava atração. Os menos tímidos pediam para tirar fotografias. E acreditem quando digo que tirei muitas, e perguntavam-me de onde é que eu era. Eu respondia Portugal e a maior parte ficava a olhar para mim com o ar de não perceber nada do que eu estava a dizer. Até que percebi que eles na escola aprendem os países na sua língua, e Portugal afinal é Bo Đau Nha. Assim que comecei a dizer Bo Đau Nha lá percebiam e acenavam com um clássico: Cristiano Ronaldo.

Em Ho Chi Minh a história é diferente. És apenas mais um estrangeiro nas ruas, que estás em férias ou que trabalhas na cidade. O que não é de todo estranho porque HCM é a cidade económica do Vietname, a mais moderna e mais desenvolvida. É talvez mais fácil para um estrangeiro se desenrascar e viver. Não obstante é uma cidade com bastantes atividades e monumentos para ver.

Tem uma rede de autocarros do outro mundo, são imensos, o tempo de espera não passa dos 15 minutos. Muitas pessoas preferem andar de táxis, por isso se estiverem em HCM e de repente parar um táxi ao vosso lado ou algum vos buzinar, é normal, estão habituados a que os turistas andem sempre de táxi. A verdade é que é tão ou mais fácil andar de autocarro como em qualquer outro lado. Cada autocarro tem duas pessoas, o motorista e a pessoa responsável por vender bilhetes, que rondam os €0,20 por viagem. Basta utilizar o Google Maps para saber que autocarro apanhar e onde apanhar. Depois é só pedir à pessoa responsável pela venda dos bilhetes para o avisar do momento em que tem que sair do autocarro.

Visitei ainda outras cidades no Vietname: Hoi An, Nha Trang, Can Tho (Mekong River) e Pho Quoc. Em todas elas encontramos aspetos culturais fortes e tradições que para muitos são invulgares.

Adorei a minha experiência, fiquei completamente apaixonada pelo Vietname e pela cultura. Conheci pessoas com histórias de vida incríveis, aprendi a comunicar com linguagem corporal cada vez que ia a um restaurante ou loja, experimentei novos sabores, vi paisagens de cortar a respiração, fiz boas amizades e ajudei a fazer a diferença. Alarguei o meu conhecimento geral asiático em mil, aprendi que chá com leite (Tra Sũa, tradução para vietnamita) não é assim tão mau, para não falar do café com leite condensado. Comprovei em primeira mão a ideia de que quem viaja muito tempo para fora, de alguma forma volta o mesmo, mas diferente – “same same but different”.

Levo um bocadinho do Vietname comigo, e se alguma vez tiver a oportunidade de voltar não irei pensar duas vezes, voltarei e voltarei com muito gosto. Obrigada Vietname.

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texto e fotos Gil Cancela
geral@w360.pt
  

Sacueni, Roménia

Sendo eu uma pessoa que sempre se preocupou ativamente com Direitos Humanos e sociais, surgiu em conversa, a oportunidade de participar numa nova aventura. A aventura de um intercâmbio do programa Erasmus +, em parceria portuguesa com a AKTO – Direitos e Democracia, de uma semana na pequena cidade de Sacueni, na Roménia, muito perto da fronteira com a Hungria. Quem me conhece sabe que não costumo sair da minha zona de conforto. Mas, desta vez, as estrelas alinharam-se a meu favor e resolvi arriscar.

Tanta gente boa!

Intitulado NEETs for Children in Need, este Youth Exchange englobava participantes de Portugal, Roménia, Grécia, Hungria e Lituânia e visava ajudar as crianças do orfanato de Sacueni, oferecendo ajuda prática e fazendo jogos didáticos e divertidos com as crianças. Ao mesmo tempo, promovia a interculturalidade entre os países participantes através de atividade de educação formal (apresentações) e não-formal (teatro do oprimido, world café, noites culturais).

O juri grego em ação, pronto a comer: Elpida, Yannis, maria, Dimitris e Corina
Noite de apresentação: Frauzina (Roménia), Rui, João, Paula e eu (Portugal)

Foi preciso uma estafante viagem de autocarro, seguida de uma longa viagem de avião, para chegarmos a Budapeste, onde nos aguardava a carrinha que nos levaria até Sacueni. Cansados, estourados, mas entusiasmados para uma aventura de uma semana que estava a começar. Começamos com as atividades de grupo, que permitiram que passássemos de vários grupos para uma comunidade. E, ao terceiro dia, o foco da nossa ida chega. Conhecermos as crianças. De um modo geral, receberam-nos de braços e coração aberto, como se acompanhássemos o seu crescimento desde há muito tempo. Desde o nosso primeiro dia, que aqueles miúdos, que passaram por tanto, na sua (ainda) curta vida, tanto que alguns de nós nem podemos (ou queremos) sequer imaginar, nos permitiram ser crianças com eles. Sempre com um sorriso na cara. Sempre com vontade de nos ter lá.

Primeiro dia com as crianças
Eu, Paula (Portugal), Maria (Grécia) e Orsi
World Café Rui (Portugal), María (Roménia), Dimitris e Maria (Grécia)
Grandes noites com grande gente: Corina, eu, María, Yannis, Elpida, Nida e Inês

Em grupos, ajudamos em algumas tarefas necessárias no orfanato, como pintar janelas ou arrumar o anexo, repletos de material que seria reciclado ou reutilizado para momentos de trabalhos manuais com as crianças. Mas, ao mesmo tempo, podemos divertir-nos com os pequenos, com quem jogamos futebol, assamos marshmallows, corremos, etc.

Sacueni, em si, é pequena, mas bonita, equivalendo, à primeira vista, a uma vila em Portugal. Muito religiosa. Em qualquer ponto em que olhamos, encontramos uma igreja ou edifício ligado à Igreja.

Explorando a cidade
Portugal em Ordea

O grupo de participantes também foi um dos principais fatores para o sucesso desta experiência. Pessoas que primavam pelo seu caráter e boa disposição, que partilhavam a mesma vontade de ajudar e ter (ou repetir) uma grande experiência. E de lá, saíram inúmeras histórias para contar e pessoas que espero levar para a vida. Obrigado a todos!

Obrigado também à Orsi, por ser sempre incansável. O teu otimismo e boa disposição contagiou-nos a todos!

Na viagem de regresso, sentíamo-nos cansados, mas com o coração cheio, e muitas histórias e peripécias para contar. Sem dúvida, uma experiência a repetir, mas que, ao mesmo tempo, deixa um frio no estômago, se qualquer nova experiência, não ficará aquém deste fantástico Youth Exchange.

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sara-reistexto e fotos Sara Reis
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Malang, Java, Indonésia


A primeira parte da aventura na Indonésia da Sara:

cropped-W_MINIATURA.pngRedescobre-te e parte

Malang, como está Malang?

No mesmo sitio.

Já cantas também o adhan?

Continuo a escuta-lo todos os dias, cinco vezes, há dias em que não consigo relaxar e meditar em português ou em inglês quando o escuto, mas faço um esforço, agradeço a este deus (eu acredito que existe algum!) por esta oportunidade.

Arroz pela manhã, pela tarde e pelo fim do dia, já experimentaste todos os tipos, certo?

Ainda não, mas descobri que gosto de arroz com manteiga de amendoim (nasi pecel), já estou um bocadinho mais habituada com os picantes (eles continuam a dizer que não!), adoro tempeh (é um snack tradicional da Indonésia) e o terang bulang manis (são panquecas indonésias).

Deves ser também já fluente no bahasa, certo?

Adorava. No entanto o Javanês, o gaul (calão) e o wali-han (lingua falada pelos locais de Malang) são as línguas que eles usam para comunicar aqui na ilha de Java. Claro que se falar em bahasa, todos me entendem e conseguimos comunicar. Se calhar talvez devesse ter aulas de javanês e não de bahasa, mas a verdade é que a Indonésia é o maior arquipélago do Mundo, cada ilha tem a sua própria língua, o bahasa indonesia é uma forma de unificação entre todos os estes povos e culturas.

Mas tu gostas de línguas, falas várias, para ti deve ser fácil fixar tudo?!

Adorava ter o Google Translator no cérebro para conseguir fixar tudo o que me dizem, sabes? A verdade é que por muito apaixonada da vida que seja por línguas, por culturas, por pessoas, desde que cheguei tenho tentado aprender tudo com calma e desfrutar ao máximo da experiência. Claro que dentro da sala de aula evito pensar em português porque continua a ser confuso. Mas a comunicação é algo super engraçado, transversal a qualquer idioma e quando descobrimos pontes entre a nossa lingua materna e outras que nada têm a ver com a nossa, é muito divertido. É o que me fascina cada vez mais.

Fascina-te porque tens mais em comum do que imaginavas?

Fascina-me porque, por muito diferentes que sejamos, por muitas línguas que falemos, as culturas sejam distintas, somos todos humanos. Sentimos todos o mesmo. A maioria das vezes, esquecemo-nos disso. De olhar introspetivamente sobre nós mesmos, enquanto pessoas não enquanto nacionalidade, raça ou cor da pele. Estou a viver há quase 7 meses com uma rapariga da Coreia do Sul que fala um idioma que nada tem a ver com o meu, com uma cultura muito distinta, com uma educação igualmente distinta, mas que tem a minha idade, que tem viajado comigo, que é das minhas melhores amigas e que me tem ensinado muito sobre isto de igualdade,  de construir pontes, de olharmos o mundo de maneira distinta.

Hoje fala-se em construir muros e tu segues com a ideia de pontes?

Fiz amizade com uns mexicanos e uma argentina, com um rapaz caribenho que vive na Escócia, com um grupo de rapazes da Coreia do Sul e com jovens indonésios nas minhas viagens na ilha de Java. O muro no México, a guerra das Coreias, a situação da Escócia perante o Brexit e a influência da religião no exercício do poder politico aqui na Indonésia.

Tive mais consciência de umas coisas, aprendi outras. Percebi que é cada vez mais essencial criar pontes, trabalhar para que todos enquanto pessoas possamos ser melhores ajudando o próximo. É verdade que correm tempos difíceis, para todos. Mas onde é que anda a esperança?

A Indonésia é o maior arquipélago do Mundo, amante de viagens, já deves ter feito imensas?

Não viajei tanto quanto queria, nem a todos os sítios onde queria, mas a bucket list ainda não está terminada, vou apagando e acrescentando coisas, é mesmo assim.

Qual foi o sitio que mais gostaste? Porquê?

Na ilha de Java, o templo Plaosan em Yogyakarta. O templo fica entre sawa (campos de arroz), umas montanhas e próximo de um templo muito famoso aqui (Candi Prambanan) que normalmente está repleto de gente. Observa-se antiguidade, respira-se ar puro e sente-se uma paz difícil de explicar.

Em Bali, o templo Ulun Danu Bratan. Este templo está construído sobre o lago Bratan, representa a cultura balinesa e é tão famoso que está nas notas de 50 mil rupias. A paisagem é linda e saber que é importante para eles, é importante para mim.

Templo Plaosan
Templo Prambanan
Ulun Danu Bratan

Passados quase sete meses, sete meses tão intensos, sete meses em que todos os dias são uma roda-viva de emoções, sete meses que já passaram.

Sabes estas, pensei eu, seriam algumas das perguntas que terias para me fazer, se nos encontrasse-mos agora, ou então fazem parte de um monólogo imaginário que acabei de pensar. Acontece que cinco meses depois, estas seriam algumas das possíveis respostas que teria para te responder.

“Com poucas expetativas, sem querer saber dos desafios com os quais te irás deparar, nem da introspeção nem auto-descoberta que os efeitos de tudo isso terá em ti. Mas parte. Por favor, Parte.”

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Viagens

catarina-batistatexto e fotos Catarina Batista
geral@w360.pt

 Macau, China

A minha ida para Macau começa com o “sim” dos Estágios INOV Contacto. Quando foi o dia de saber para onde ia, tive de perguntar à minha orientadora qual seriam as minhas funções em Macau e ela disse-me que seriam em Arquivo/Biblioteca e que tinha achado curioso o facto de nesse ano, pela primeira vez em 20 edições do INOV, eu ser a primeira pessoa a concorrer como gestora de informação e a instituição que concorreu ser igualmente a primeira a pedir alguém formado na minha área. Foi mesmo sincronicidade.

Macau

Depois de seis meses a organização onde estava quis ficar comigo. Mas mais tarde acabei por mudar para a biblioteca de uma universidade. Isto ia permitir que desenvolvesse mais competências na área de biblioteca, bem como uma boa experiência de trabalho. Sou a única estrangeira na biblioteca e até agora tenho aproveitado a experiência para aprender ao máximo!

Macau

A minha adaptação à cidade foi bastante fácil. Tive, desde o início, ajuda de amigas portuguesas e de amigos locais e conhecidos de amigos que me vinham já recomendados. A minha maior dificuldade foi, sem dúvida, a língua. Por muito que viesse preparada para a cultura e adorasse estar em Macau, não falar o cantonês foi sem dúvida o maior desafio. Só após alguns meses de estar aqui e com a ajuda dos meus amigos chineses e macaenses consegui ficar mais independente, mas mesmo assim, ainda hoje tenho de recorrer à ajuda linguística deles quando me encontro numa situação mais urgente. Com 9 tons é difícil às vezes acertar no certo. O que sei, aprendi por repetição e por treino. Neste momento estou a aprender Mandarim porque a maioria dos meus colegas de trabalho são da China Continental, o que significa que me faz mais falta. É mais fácil que o cantonês, mas nem por isso deixa de ser exigente. Tenho de estudar mais, claramente!!

Macau

O que mais adoro em Macau é o facto de todos dizerem que é uma terra pequena, no entanto, a cada mês encontro sítios novos e lugares para visitar. Macau só é pequena para quem se deixa cair na rotina dos mesmos caminhos. Acho que não vou poder dizer que conheço bem Macau, mesmo que fique cá muitos anos. Cada dia que nos aventuramos por uma rua diferente, descobrimos um novo lugar, um novo restaurante, uma nova loja, um novo templo… Macau é uma caixinha de surpresas. Por isso, sempre que alguém vos disser que conhece bem Macau, não acreditem.

Macau

Macau

Por mais que ame Portugal, não quero voltar agora. Se pudesse trabalhar em Macau e viver em Portugal era perfeito, mas neste momento Portugal não tem disponíveis as condições que me permitam desenvolver a nível pessoal e a nível profissional. Estar aqui e lidar com tantas pessoas de países e culturas diferentes é algo que em Portugal não acontece com facilidade. Permite que fiquemos mais tolerantes, mais pacientes com a diferença e aceitar o outro, com admiração e vontade de aprender, olhar à nossa volta e perceber que o mundo tem tanto de grande como de pequeno. Macau é um local de passagem para a maioria de nós e a nossa missão enquanto aqui estamos é tirar partido disso e sairmos daqui de alma e coração cheios. Gostaria, daqui a uns anos, de voltar para Portugal, mas antes disso outras partes do mundo esperam por mim. Até logo Portugal!

O que visitar em Macau?

Os locais indispensáveis em Macau passam pela Casa do Mandarim, Igreja de Nossa Senhora da Penha, Jardim Lou Lim Ieok, Ruinas de São Paulo, o templo de Tian Hou em Coloane e a Vila de Coloane. Nem sempre há tempo para ver tudo porque normalmente as pessoas vêm a Macau apenas por dois dias o que significa que só chegam a ver os pontos mais turísticos, mas estes que referi, são os mais importantes para mim. Quem tiver tempo deverá ir ver ainda o que eu chamo de Templo do Rei Macaco ao lado do Jardim de Camões.

Macau
China
 Português e Cantonês
552 503 hab. (2011)
Pataca (MOP)
UTC+08:00
 tipo D e G
+853
 999
O clima de Macau é muito húmido, sendo a chuva muito frequente. No inverno as temperaturas  são em torno dos 15ºc e no verão chegam aos 30ºc.
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Discurso Direto

sara-reistexto e fotos Sara Reis
geral@w360.pt

Malang, Java, Indonésia


A aventura da Sara continua:

cropped-W_MINIATURA.pngMalang, como está Malang?

Chamo-me Sara e tinha 22 anos quando decidi despedir-me do meu trabalho, num hotel 5 estrelas, quando decidi largar a minha vida caótica e estável em Lisboa, quando decidi comprar um bilhete só de ida, de dizer “até já” aos meus amigos e à minha família e partir um ano para estudar Bahasa Indonesia, numa cidadezinha na zona este de Java chamada Malang, na Indonésia.

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Saí de Lisboa com 30 kg de bagagem com tudo apostos para viver um ano fora, muitos sonhos na mão e um desejo enorme de poder acrescentar valor à vida destas pessoas “do outro lado do Mundo”.

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Cheguei a Jacarta com uma portuguesa; apanhei o voo para Malang, sozinha e com uma série de desconhecidos do Madagáscar, Vietname, Coreia do Sul, Japão, Tailândia e claro Indonésia.  Durante os próximos 9 meses, estas pessoas vão ser a minha nova “família” cá, vão estudar comigo numa pequena universidade chamada IKIP BUDI Utomo no centro de Malang. Ninguém fala português ou espanhol ou italiano, apenas as colegas do Madagáscar falam francês e claro, inglês. Sou a primeira portuguesa no programa nesta cidade e nesta universidade. Não estou chocada nem triste. Estou orgulhosa, porque antes de mim, já por aqui passaram os portugueses e com muito menos tecnologia da qual disponho para poder falar com a minha família e com os meus amigos de Portugal e do resto do Mundo. Ah! E sobreviveram e foram bem-sucedidos.

Foi na coragem dos portugueses que pensei quando cheguei a Malang”
Foi na coragem dos portugueses que pensei quando cheguei a Malang e a grande maioria das mulheres estava coberta com o hijab, enquanto que os homens andavam descontraídos na rua nas suas motorizadas. Para eles, era só mais um dia. Para mim, chegar a uma cidade onde não conhecia ninguém, com uma cultura e um idioma tão diferente, foi virar a minha vida 180º e continuar sorrindo.

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Quando oiço estas pessoas nas ruas a conversar um idioma que desconheço completamente (o bahasa é uma mistura de árabe, de italiano, de holandês, de português e de mais uma série de idiomas, que pensar em português aqui se torna muito confuso. É como montar um puzzle com as mesmas peças que estamos habituados, mas de uma forma totalmente diferente.); quando as vejo comer “arroz pela manhã, pela tarde e pelo fim do dia”; quando as oiço a orar, é impossível ficar indiferente ao Adhan (cinco orações que cada muçulmano deve rezar por dia), penso na diversidade religiosa e cultural que existe pelo Mundo. Estas pessoas vivem a religião de uma forma tão intensa e tão genuína que é impossível pensar que seja justamente a sua religião que torna o Mundo tão complicado. Eles são simpáticos. Sempre dispostos a ajudar. Mesmo que não percebam inglês, raramente irão estar zangados ou a discutir.

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E isso para nós portugueses, europeus, que queremos acrescentar valor à nossa própria vida, que vivemos numa agitação diária e que desejamos alcançar resultados e “estar-bem” na vida o quanto antes, faz-nos pensar. Porquê? Porque é que temos de ser melhores uns que os outros, porque é que para chegar ao caminho certo, muitos de nós têm de humilhar, espezinhar e “trair” o próximo? É certo que os indonésios ainda têm um caminho enorme a percorrer no que trata de modernidade, de tecnologia, de condições de vida, mas eles não parecem muito preocupados com isso. Vivem um dia de cada vez. Fazem as coisas com o tempo e com a paciência que só eles sabem e têm. E são muito orgulhosos por serem indonésios, em quase todas as ruas há bandeiras, símbolos, t-shirts, há um patriotismo gigante, uma beleza indescritível nas paisagens circundantes a Malang e não só.

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Estou à um mês e pouco na Indonésia, para além da minha vida ter mudado, a minha idade também (cumpri os 23 cá), a pouco e pouco também parte de mim vai mudando. Sim, apesar da língua, da cultura, da beleza indescritível, viver na Ásia também é difícil. Acabaram-se os duches de água quente, o pão quentinho ali do Pingo Doce, a comidinha saborosa da Mãe, o quarto fresquinho.

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Mas nem por isso deixo de andar sorridente. Isto de se viver com colegas estrangeiros; de aprender a cozinhar com eles; de perceber que se calhar tens mais em comum com a tua colega que, entretanto, já se tornou tua amiga da Coreia, do que alguma vez imaginaste; de reinventar crepes para a casa inteira, disso resultar numa dose gigante de gargalhadas para o jantar. Torna-te mais aberto à mudança.

“Parte porque precisas de mais desafios, porque o Mundo é demasiado grande para se estar preso a um sitio só.”
E não, não troco o que estou a viver por nada. Faz parte. Parar. Respirar fundo. Abrir os nossos olhos, os nossos ouvidos, deixar que seja o nosso nariz e o nosso paladar a escolher que tipo de comida vamos experimentar hoje. O nosso coração derrete-se com a colega que mora no piso de baixo que fala pouco inglês, mas que sabe cozinhar tempe, falar bahasa e que quer muito aprender a falar inglês. Pensar na hipótese de começar a dar aulas aqui em casa. Tornar o Mundo Melhor, fazê-lo por dentro, por perto, com a hipótese de mudar e de reinventar o já estabelecido. Crescer. Amar. Te. A Ti. Ao Próximo. Porque tu precisas. Porque tu mereces.

Ainda me faltam bastantes meses até voltar para Portugal. Não deixo de pensar naqueles que amo por um único dia, mas estou a viver uma experiência única, num país com um idioma que me exige todos os dias e a toda hora, que me esqueça por um bocadinho que sou portuguesa e latina. Que me obriga a focar-me nele. Sem porquês e um dia de cada vez. Que me desafia, que me faz rir. Viver na Ásia é mesmo assim.

Por isso, Parte. Parte por ti. Parte porque precisas de mais desafios, porque o Mundo é demasiado grande para se estar preso a um sitio só. Parte porque precisas de te encontrar. De te redescobrir. De te reinventar. De coração aberto. De Sorriso no Rosto. Com a confiança que tudo vai dar certo. Mas Parte.

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