AviaçãoOs AviõesPorque é que os motores dos aviões não têm uma rede para evitar ingestão de pássaros?
porque é que os motores dos aviões não têm uma rede para evitar ingestão de pássaros

Porque é que os motores dos aviões não têm uma rede para evitar ingestão de pássaros?

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“Bela vista do Hudson”. Esta terá sido uma das últimas frases de Chesley Sullenberger, antes de conquistar o título de herói americano. O Hudson é o rio de Nova Iorque e neste dia 15 de janeiro de 2009 foi pista improvisada para que um A320 com 155 pessoas a bordo pudesse aterrar.

90 segundos foi o tempo em que Sullenberger e o co-piloto Jeffrey Skiles puderam apreciar a vista de Nova Iorque a partir do cockpit, logo a seguir tiveram que começar a lidar com um dos problemas que mais consequências perigosas pode trazer a um avião: o birdstrike. Os gansos foram avistados pela tripulação, mas não com a antecedência suficiente para evitar a colisão e o avião acabaria a perder os dois motores, numa das fases mais críticas do voo.

“Mayday, mayday, mayday”, a palavra repetida três vezes e que nenhum piloto quer dizer foi ouvida na torre de controlo do aeroporto de La Guardia, de onde o voo 1549 tinha saído apenas alguns segundos antes. A primeira ideia de Sullenberger foi regressar e foi isso que pediu aos controladores de tráfego aéreo. Mas depois de alguns cálculos e sem que fosse possível reativar os motores, rapidamente se percebeu que um retorno ao ponto de origem podia levar a aeronave a despenhar-se no centro de Nova Iorque, provocando um acidente de proporções bíblicas.

Um pequeno aeroporto ainda foi posto à disposição dos pilotos pelo controlador aéreo, mas o comandante foi claro na resposta: “não conseguimos chegar lá, vamos aterrar no Hudson”. Cinco minutos depois de ter começado, a viagem termina no meio do rio de Nova Iorque e todas as pessoas começam a sair do avião, ficando à espera de assistência em cima das asas.

Apesar de ferimentos graves em alguns tripulantes e passageiros, todas as pessoas conseguiram ser retiradas com vida deste A320. A amaragem no rio tinha tudo para dar errado, é uma das manobras mais exigentes e apenas postas em equação quando as alternativas são a morte quase certa de todos os ocupantes. Mas esta história com final feliz começa com um dos fenómenos que mais preocupam a indústria, o choque com aves. E mais problemático ainda – como aconteceu neste caso – o choque com aves de grandes dimensões.

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O caso do voo 1549 da US Airways não teria sido tão grave se o Airbus não tivesse perdido os dois motores. As aeronaves estão preparadas para voar com apenas um motor, sendo que se fosse este o cenário o retorno ao aeroporto de La Guardia tinha sido tranquilo e os passageiros quase nem teriam percebido que o problema podia ter sido bem mais grave.

A perda de dois motores também não é, como se viu, um passaporte para a morte. Mesmo ocorrendo numa das fases mais críticas do voo, quando é necessária muita força para pôr o aparelho no ar, é possível continuar a voar durante alguns segundos, até se encontrar um sítio para pousar. Ainda assim, manter os motores em funcionamento é a melhor de todas as opções. Não haverá, por isso, uma forma de evitar a ingestão de pássaros?

A colocação de uma rede em frente aos motores não é uma opção viável para evitar a ingestão de pássaros ou até objetos que possam estar junto à pista do aeroporto no momento da descolagem por vários motivos.

A força de um motor de avião é de tal forma grande que mesmo sem estar na potência máxima, em solo, é capaz de arrastar uma pessoa para o seu interior. É por isso que quando estão em terra, os aviões têm luzes ligadas que são interpretadas pelos funcionários de handling como um sinal para que não se aproximem. Há também marcas na fuselagem e nos próprios motores que indicam as distâncias a partir das quais passa a ser perigoso continuar a avançar. É também por causa desta capacidade devastadora que quando se faz o desembarque remoto num aeroporto (sem manga direta para o terminal) é criado um perímetro de segurança em torno dos motores, muitas vezes com recurso a correntes ou fitas.

Também por isto se pode justificar a colocação de uma rede em frente aos motores, afinal seria capaz de salvar vidas. Esta até pode ser verdade em terra, mas vamos já perceber que em voo pode representar um problema ainda maior para a segurança dos passageiros.

Apesar de no voo do comandante Sullenberger os dois motores terem sido avariados pela ingestão de pássaros, a verdade é que o birdstrike ocorre com mais frequência do que se sabe, porque não há danos provocados nos aviões na maioria das vezes. Os motores são suficientemente grandes, potentes e fortes para triturarem uma ave, expelir os destroços e continuar a funcionar como se nada tivesse acontecido.

A colocação de uma rede em frente aos motores iria impedir este processo, levando a que as aves fossem sugadas com a mesma força, mas sendo impedidas de entrar no motor ficariam presas, afetando de forma muito crítica o desempenho da aeronave. Pior ainda: com aves suficientemente grandes, podia mesmo haver uma cedência da rede, fazendo o motor ingerir um material metálico que poderia causar danos ainda mais graves.

O projeto de testes de um motor passa por várias fases que estão relacionadas com o desempenho em diferentes condições climatéricas, em diferentes condições mecânicas e até em condições de ingestão de pássaros. Antes de serem incorporados num avião, os motores têm que mostrar o que valem quando lhes são atiradas aves mortas para o interior. Uma falha nesta fase pode implicar o falhanço de todo o projeto.

Um motor a jato como o dos aviões comerciais funcionada de uma forma simples de explicar: suga a maior quantidade possível de ar, conseguindo gerar força para que o aparelho se movimente quando esse ar à expelido. A quantidade de ar ficaria substancialmente reduzida de um objeto estivesse na frente do motor e também por isso seria um problema para a eficiência do aparelho que gastaria mais combustível.

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Sou licenciado em Jornalismo e estou a fazer o mestrado em Relações Internacionais. Quero aprender como gira o globo. Como se fazem e desfazem alianças. Como é que os líderes aprendem com a história. diogopereira@w360.pt