Discurso DiretoDiário de viagem: Santiago de Compostela até Finisterra

Diário de viagem: Santiago de Compostela até Finisterra

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Domingo, 24 de Julho – Entre Lisboa, Porto & Santiago

Não bebi café. Deve ter sido a primeira vez, desde algum tempo em que sai de casa sem o meu termo de café. E foi estranho. Não dormi bem, como nunca durmo, perante o entusiasmo de uma viagem e desta vez, aquele must de me obrigar a parar.

Sai de Lisboa, às 10h, depois de duas semanas sem folgas, defesa de projeto e alguns fulls que me deixaram, como deixam sempre, muito cansada.

Cheguei ao Porto, 3h45 min depois… considerando que só terei autocarro para Santiago, as 16h, fui almoçar. E o quê, para almoço? Uma Francesinha, daquelas à moda do Porto e de preferência com alguns vegetais como side dish.

Café Santiago estava fechado. Um artigo da Time Out sugeria a Cervejaria Brasão como primeiro lugar a visitar, a uma distância de 9 min. Cheguei e tinha fila e eu, uma viajante sola, que queria almoçar Francesinhas no balcão.

Sentaram-me poucos minutos depois de ter chegado, numa mesa. Serviram-me uma cola 0 num copo de gin. Olhei à volta e era a única, no meio de famílias e estrangeiros. Tive vontade de ir comprar um livro. Quando estava no autocarro a caminho do Porto, fiz o logout das redes sociais tal como tinha prometido, o e-mail da universidade que ali está aberto ainda e eu, que quero desligá-lo.

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Escrevi: Switch off.

Sai da cervejaria para ir até à Catedral do Porto, para muitos o início do caminho, ainda que o meu, o ano passado tenha sido na Póvoa do Varzim.

Quando cheguei, estava a decorrer um casamento, observei o vestuário e sorri… uns estrangeiros tiraram-me aquela foto da praxe e depois, fiz me até ao Campo 24 de agosto, que tinha autocarro para apanhar.

Cheguei à estação, 15 min antes do suposto e esperei pelo autocarro da Alsa.

Chegou, o condutor, um senhor dos seus 50 anos espanhol, disse que tinha que colocar a minha backpackno porta-bagagens e assim fiz.

O autocarro iria parar em mais duas estações na zona do Porto, seguia para Braga, Valença, Vigo e por fim, Santiago.

Assim que cheguei a Santiago, quis ir visitar a Catedral, caminhei e caminhei e la a encontrei.

Havia uma festa.

Estava novamente a ouvir espanhol na rua.

Voltaram os sorrisos.

Segui para o Albergue Monte Gozo, perguntei indicações, pedi ajuda a estranhos e o clássico, foi seguir as indicações do Maps e pronto.

Quando lá cheguei, eram 23h15, fui comer uma das minhas massas instantâneas e uma 0. No bar, estava a ver outra festa e jantei. Segui para o quarto, estava sozinha e tinha lençóis lavados. Tudo me parecia impecavelmente limpo.

Tomei um duche, vesti o pijama e fui dormir.

Sobre pensamentos: a dureza deste primeiro ano de curso, Chef Kiko e Voluntariados.

Mas amanhã, vou começar a viagem para Finisterra, logo penso e reflito sobre o que me vem à cabeça.

Switch Off.

Segunda-feira, 25 de Julho – Entre Santiago, muitos Pueblos & Olveira

Acordei às 7h15 com o despertador. Despachei-me em 15 min, para depois ir desayunar à “cantina” do albergue. Encontrei umas portuguesas muito simpáticas de Lisboa, trocamos contactos pois elas já iam apressadas para apanhar o bus de regresso a Lisboa.

Comi um croissant, o meu cappucino e meio iogurte de frutas.

Fui fazer o checkout passavam poucos minutos das 8h, perguntei novamente por onde se ia buscar a maldita, sim maldita, credencial e nada de respostas.

Agarrei na mochila e fiz me à estrada. Segui para a Catedral, para a oficina do Peregrino. A “sorte” é que o Rei de Espanha vinha até cá hoje com a família e passavam segundos das 9h, quando um polícia me bloqueou a entrada. Diz que que não podia passar com mochila. Era até às 9h, que o podia fazer. Dei meia-volta, dei de caras com outro polícia que me deixou ir. Lá consegui encontrar a oficina do peregrino, foi uma trabalheira perceber onde podia encontrar a credencial, perguntei e perguntei. Um segurança de seu nome, Eduardo ouviu-me e apressou a ajudar-me, entregou-me a credencial e um mapa, perguntei-lhe quanto lhe devia e ele disse que não era nada, agradeci-lhe e sorri.

Sai da oficina do peregrino, direta para a igreja e fui barrada, novamente, pela polícia.

Bradei aos céus pelo maldito rei, dei meia-volta e após alguns minutos a caminhar encontrei uma seta amarela e um peregrino de mochila às costas com a Compostela, perguntei à primeira pessoa que vi se estava no sítio certo, que apressadamente me respondeu que sim, que era sempre adelante.

Lá me lembrei da app Camino Ninja que tinha no telemóvel e segui caminho, passavam cerca de 30min das 9h, quando comecei a viagem, Finisterra era o destino.

Vi montes, com fartura, poucos sítios para comer, ou pernoitar, mas não me senti nem frustrada nem chateada, segui só.

Eram 11h45 quando me sentei num café chamado Cruceiro e conheci Josito, o dono, pedi uma tortita vegetariana e uma 0, ouvi o galego que me soube pela vida e me fez rir. O senhor como viu que estava sozinha, ainda me ofereceu o postre, uma tarte de maçã, agradeci e continuei a ouvir as conversas de café enquanto escrevia.

Depois, segui caminho e continuei a andar… vi estrangeiros e espanhóis, desesperei pela falta de água somente e pela minha fome que foi sendo alguma.

Escrevi frases soltas.

Caminhei até às 22h15, com o objetivo de passar os 59.60 kms que me tinham deixado What the hell?! em Santiago, o ano passado.

Vi vacas, muitas vacas. Campos de milho, imensos. Montes. Parques eólicos. Uma subida até ao topo de uma montanha que me deixou “está quase quase, Sara”. O sol e o calor, que se foram dissipando pelo rosto e pelo corpo.

O agradecer por tanto e por tudo. Pelas pessoas acima de tudo, não pelo resto. Uma paz que já tinha saudades de sentir e que viagens em Portugal e no Mundo, não poderiam permitir. O oxigénio que desesperei por ter. Dentro de Mim. Estava novamente a tê-lo. E os sorrisos voltaram.

Aos 59km obriguei-me a parar neste albergue Ponte Olveira. Só queria deixar a mochila e comer pizza ou hambúrguer, mas a cozinha estava fechada e la me resignei à comida que tinha trazido. Massa. Uma banana. Frutos secos. Batatas fritas.

Conheci dois espanhóis, a Aurora de Placencia e o Uri de Barcelona, que estive à conversa, depois de um full day de caminho.

Soube-me bem. Os abraços da Aurora que quase me deixaram as lágrimas nos olhos, pelas boas vibrações que tinham.

Soube-me pela vida.

Fiz 61.20 kms e fiquei muito contente.

Amanhã, há mais. Finisterra.

Terça-feira, 26 de Julho – Entre Corzón & Fisterra

Acordei às 7h15 e com uma noite hiper mal dormida. As pernas que estavam bambas por causa do excesso de kms da noite anterior. Não coloquei tiger balm, por achar que era hiper tranquila a noite. Não era e não foi.

Lá me deixei estar por mais 15min no saco de cama e lá me arranjei para sair do Albergue.

Tomei um pequeno-almoço inglês: ovos mexidos, bacon e uma torrada. O café que trazia na mochila e que ofereci á Aurora e ao Uri quando saíram, tinha muitos e achei que eles iam precisar.

Comi tranquilamente, com a certeza de que seriam apenas 30 kms e em meio-dia, estava em Fini. Não eram e não estava.

Sai, a apreciar a paisagem, sorridente e tranquilamente.

Depois de umas (não quero mentir) 3 horas sem ver populações, apenas peregrinos de ida a Finisterra e outros a Santiago, vacas e bóis, subidas e descidas com o mar no horizonte, desesperei pela merecida pizza que tanto queria, recusei-me a aceitar um bocadillo e deixei-me andar.

Parei num café em Cee, conheci a Esmeralda dos seus 20 e poucos anos, que não tardou em aceitar-me no seu restaurante e a mostrar-me o menu. Quis vegetais, mas o meu corpo desesperava por algo bombástico e exigia-me uma hambúrguer com queijo, salada, ovo e batata frita de acompanhamento.

Comi tranquilamente e a saborear cada migalha. Tinham sido demasiadas horas sem comer e sobre um sol abrasador.

Falei com uma dinamarquesa chamada Elina, expliquei-lhe o propósito disto e ela só assentia com a cabeça. Despedi-me pouco depois tanto dela, como da Esmeralda.

Segui caminho, era Finisterra que estava no horizonte e eram umas 14h15 quando sai desse restaurante.

Gostei de Cee, mas achei tentadoras as praias de Fisterra, um azul brilhante sobre o horizonte e um areal branco, a somar com o calor e o sol, deixaram-me tentada a descalçar os ténis e a trocar os calções pelo fato de banho branco por estrear.

Contive-me e praguejei aos céus.

Mantive-me fiel ao caminho.

Faltavam 7 kms, que na minha cabeça pareciam 70 e voltei a praguejar.

Admirei as praias, mas desesperava por chegar, para ir nelas desfrutar.

A igreja que não tinha maneira de aparecer, muito embora ao fundo, lá longe visse o Cabo, achei aquilo bem mais que os 7 km que me eram ditos.

Segui caminho, andei pelo meio da natureza.

Faltavam apenas 2 kms, tive os meus pés a queixarem-se à séria do esforço. O Cabo parecia longínquo e a dores insuportáveis.

Praguejei novamente, pensei em tirar os ténis, mas recusei novamente fazê-lo. Promessa.

Cheguei ao Cabo, as dores mantinham-se fortes e eu continuava a andar até aos rochedos, ia lançá-los ao mar.

Renovar a vida, no fim do mundo, era o que diziam os antigos.

Sentei-me. Olhei para eles, Agradeci-lhes. Lancei os ao mar, ou antes às rochas do Cabo Finisterra.
Há coisas que ninguém tem de entender, há coisas que haverão sempre e indubitavelmente ter de ficar entre ti e o divino.

Quando voltava, entrei num albergue que já tinha passado no caminho de ida, perguntei se tinha cama e o Juan (o dono) disse que sim, até me fez desconto e fiquei.

Fez-me uma pulseira as cores, toda gente tinha uma, disse que as pessoas faziam isto ou por assuntos pessoais, ou para lançar as cinzas de um ente querido… eu respondi que vim para reconectar, tinha gostado do ano passado.

Fiquei contente com a pulseira, apressei-me a ir trocar de roupa, para ir ao supermercado comprar comida, noodles (o clássico) e fui dar um mergulho à Playa de Ribeira.

Agradeci pelo começo de uma “nova vida”, fosse isso o que fosse.

E vim para o Albergue, jantei, tratei de bolha e escrevi.

Os homens mantiveram-se ressonar, há um cheiro pouco agradável e eu depois lembrei-me que é por isso que gosto cada vez menos desta parte, dormitórios unissexos.

Amanhã regresso a Portugal e a vontade de me conectar com as redes sociais é 0.

Quarta-feira, 27 de Julho – Fisterra & o regresso

Comecei o dia com o despertador e o barulho da chuva, da app do iPhone, considerando que não conseguia dormir devido ao ressonar e ao mau cheiro no dormitório.

Acordei, vesti o fato de banho, agarrei na toalha, havia uma praia pela qual tinha passado, quando vinha no caminho, a Playa da Langosteira. Ficava a 17 min a pé, ainda que os meus pés, coitados, estivessem literalmente acabados, lá fui.

A praia estava vazia, o areal branco, o sol sob um horizonte de azul e apesar da água estar gelada, mergulhei e nadei durante algum tempo. Soube-me bem. Não me lembro da última vez que fui nadar em jejum.

Voltei para o albergue, enquanto via recuerdos e já no wc do albergue, encontrei a Cármen de Badajoz e disse-lhe que tinha adorado a energia dela, que queria muito trocar contactos.

Com o duche já tomado, coloquei as coisas na cozinha, enquanto a Cármen está à espera de pão e me convida para desayunar com ela, disse que sim, enquanto arrumava as minhas coisas.

Enquanto ela fazia as tostadas, eu preparava café, entretanto juntou-se o Jimmy, um irlandês muito simpático que preparava porridge (papas de aveia) para ele e para a filha, Lorena. Perguntei se queria café, disse que sim e ofereci-lhe café, as tantas, estou a desayunar com a Cármen, com o Javier e depois tenho o Jimmy que me oferece porridge e claro, Juan o dono do albergue que está completamente alinhado com tudo.

Falei com a Cármen sobre a vida, diz que costurar lhe dava qualidade de vida e que não conseguia ter uma vida quadriculada como a minha.

Fiquei a pensar. Entretanto, tenho o Javier a dizer-lhe que tem que ir buscar a Finisterrana à oficina, a tal prova como fiz o caminho… nem sabia que havia tal coisa, mas alinho.

A Cármen teve um certificado de participação, pois não fez o caminho todo e eu, tive aquilo tudo direitinho e entregue pela Maria, a rapariga da oficina. Perguntei se havia muitos portugueses e ela diz que nas férias alguns iam em grupos até cá, sorri, apesar de ter vindo sozinha, é sempre bom ter conterrâneos por aqui.

Fui ao hostel buscar a mochila, despedi-me do Juan e também tirei fotos com o Jimmy, o irlandês dos seus 50 e muitos anos.

Segui para a estação de autocarros de Fisterra, comprar o bilhete para Santiago e meter-me no autocarro. Vi a Costa espanhola, Caramba! É muito bonita!

Quero voltar a Finisterra e ir a Muxía. Não conheci nenhum português nesta viagem. Mas estou muito contente por esta manhã. Foi muito divertido. Valeu ter vindo só por isto.

Cheguei a Santiago, fui a catedral, percebi que é bem mais fácil chegar do que pensava e do que a confusão das últimas vezes, comi pizza e conheci a Sheila da pizzaria espanhola.

Deambulei pela cidade para comprar uns ténis, mas não gostei de nada. Já quase a chegar a estação de autocarros, chamou-me a atenção livros em segunda mão e Sophie Kinsella, €2 um livro “Twenties Girl”, parece-me bem. Comprei o livro, enquanto um peregrino inglês mais jovem, causa pânico ao senhor da loja.

Disse ao peregrino já na rua, para naqueles casos não dizer nada e pagar, despede-se de mim em espanhol e eu, não tive a certeza se estava no gozo ou a tentar ser simpático. Sair de Santi, regressar ao Porto, amanhã Leiria e as redes sociais continuam bem off… não tenho saudades.

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Nasceu em Leiria, mas desde sempre sentiu que os seus horizontes seriam além-terras-do-Lis. A comunicação (uma “poliglota não-assumida”), a curiosidade por formas de “vi-ver” diferentes, aliadas à sua energia contagiante, tornam-na uma contadora de histórias nata. É também, apaixonada por todo tipo de projetos de voluntariado, porque acredita, mesmo, que pode “tornar o Mundo melhor”.