A América de Obama é uma América racista

Nº22

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Diogo Pereirapor Diogo Pereira
diogopereira@w360.pt

nº 022


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Bom dia, cá estou para mais uma Newsletter semanal do W360.PT!

Donald Trump disse que ia construir um muro na fronteira sul do México. Donald Trump falou das mulheres como se fossem objetos sexuais. Donald Trump disse que ia proibir a imigração de islâmicos nos EUA. Donald Trump prometeu acabar com o serviço de saúde criado por Obama, o Obamacare. Donald Trump orgulhou-se de fugir aos impostos enquanto empresário. Donald Trump disse que Putin era melhor presidente do que Obama. Donald Trump disse que as alterações climáticas eram uma invenção chinesa para travar a economia americana e que, por isso, ia romper com o acordo de Paris. Hillary Clinton ganhou as eleições.

Esta seria a conclusão óbvia de uma campanha suja e com um dos candidatos mais repelentes de sempre. Mas a América de Obama, a América que elegeu Obama, deu agora o cargo de presidente a Donald Trump.

Esta é a notícia da semana e esperemos que não seja a do século, porque isso significaria que os Estados Unidos tinham perdido o rumo e com eles tinham arrastado todo o mundo que depende da sua liderança.

A realidade é que na passada quarta feira os Estados Unidos da América transformaram-se numa democracia mais pequena. É verdade que a maioria vence, mas também é verdade que a justiça democrática só é plena quando todos os poderes são devidamente separados, quando não há ingerências de nenhuma espécie e, fundamentalmente, quando as minorias são respeitadas, acolhidas, entendidas e lhes é dada segurança.

Trump incitou ao ódio e pôs em causa todos estes valores democráticos porque, dizem, os americanos queriam romper com o establishment. Mas de que é que os Americanos estão fartos? Do crescimento económico que ronda os 3%? Do desemprego residual de 5%? De fazerem parte de uma das economias mais pujantes do mundo? De viverem num país seguro com cada vez menos crime violento? De viverem democraticamente com os seus direitos civis assegurados?

Não, os americanos não estão fartos de nada disto. Trump chegou à Casa Branca porque os americanos são burros e a perceção que têm do país onde vivem é lhes dada por canais de televisão ligados ao esgoto como a Fox. Mas os americanos não são só burros. Também são xenófobos, racistas e misóginos. É por isto que Donald Trump é o novo presidente de todos os americanos, incluindo aqueles que não são nada disto. Aliás, esses são a maioria

Mas nem só de eleições americanas se fez a semana.

Na Síria foi lançada uma ofensiva para recuperar a cidade de Raqqa, último bastião do Estado Islâmico naquele país. O objetivo é começar a isolar a cidade para depois a atacar em força à semelhança do que acontece em Mossul, no Iraque. Esta ofensiva é liderada pela Unidade de Proteção do Povo YPG, uma força curda que tem criado alguma tensão na fronteira da Turquia e que é considerada um ramo ilegal do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) por Ancara. Por outro lado os Estados Unidos consideram que esta á a força mais bem preparada daquela região… O Estado Islâmico é o alvo a abater, mas Turquia e EUA não se entendem quanto aos aliados.

Em Mossul as notícias dizem que as forças iraquianas estão cada vez mais próximas de assumir o controlo da cidade, mas o rasto de destruição humana tem sido colossal. Ao que a ONU apurou são mais de 1.500 as famílias que têm sido obrigadas a acompanhar os combatentes do Daesh quando estes têm que abandonar as cidades das quais têm perdido o controlo.

Mas nesta guerra não é só o Estado Islâmico que recebe acusações. Na quinta feira a Amnistia Internacional veio dizer que tem provas de um alegado assassinato extrajudicial levado a cabo por um grupo de homens vestidos com uniformes da Polícia Federal Iraquiana. As vítimas serão 10 homens e um rapaz de 16 anos. As autoridades iraquianas ainda não reagiram à acusação.

Na Turquia continua a saga que começou com o golpe de estado falho de julho. Nesta semana mais um jornalista, diretor de um dos principais jornais que mais têm criticado a atuação do presidente Erdogan, foi preso. E com as detenções em larga escala, o país viu-se obrigado a pedir aos militares da força aérea que estavam na reserva – ou que haviam sido expulsos de funções antes do golpe – que voltem a assumir as suas funções, uma vez que a força aérea é uma das áreas mais desfalcadas das forças armadas turcas.

Na Hungria Viktor Orbán queria mudar a constituição para impedir que a União Europeia obrigasse o país a acolher refugiados. Queria porque os húngaros votaram em referendo e decidiram que a ideia do primeiro-ministro devia ir para a frente, mas o referendo foi considerado inválido porque a abstenção foi gigantesca. Orbán avançou com a proposta de decreto-lei para o parlamento, mas a maioria de 131 deputados não foi suficiente para garantir que a proposta se efetivasse em lei porque a oposição votou contra. Será que é desta que a Hungria vai derrubar os seus muros?

Em Hong Kong mais de 2.000 pessoas participaram numa manifestação contra a ingerência da China na política interna daquela região. Vestidos de preto e em silêncio os manifestantes protestavam contra a atuação do governo chinês que impediu dois deputados de tomarem os seus lugares na assembleia legislativa de Hong Kong.

Um presidente que deixa como principal legado 70.000 presos políticos, 34.000 pessoas torturadas e 3.200 mortas às mãos do seu regime deve ir para o “cemitério dos heróis”? Deve! É o que diz o Supremo Tribunal filipino, apoiado pelo presidente Rodrigo Duterte.

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FRASES

“Trump vai ser o nosso presidente e devemos-lhes um espírito aberto e a hipótese de liderar”

Hillary Clinton no discurso de derrota

“No dia seguinte à eleição, temos de nos lembrar que estamos todos do mesmo lado. Não somos republicanos ou democratas, primeiro somos americanos e patriotas”

Barack Obama na reação à vitória de Trump

“São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os Barrabás, mas o povo, os pobres, tenham fé em Deus ou não, mas são eles que temos de ajudar a obter a igualdade e a liberdade”

Papa Francisco

“A grande batalha para a libertação de Raqa e da sua província começou”

Jihan Cheikh Ahmad, porta-voz da força árabe-curda (apoiada pelos EUA) anunciando a ofensiva pela libertação da segunda cidade ainda controlada pelo Estado Islâmico

ROSTO

trumpDonald Trump foi subestimado por todos mas conseguiu chegar à Casa Branca com um discurso claramente xenófobo, racista e misógino derrotando uma das candidatas mais bem preparadas de sempre. A mesma América que fez história quando elegeu um negro, voltou agora a fazer história elegendo um boçal.

NÚMEROS

61

O governo alemão anunciou que vai doar mais 61 milhões de euros do que estava previsto às O governo alemão anunciou que vai doar mais 61 milhões de euros do que estava previsto às Nações Unidas para financiar operações de ajuda humanitária em África. Esta doação eleva a contribuição anual que a Alemanha faz para o ACNUR para 298 milhões de euros.

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