Venceu o humanismo num mundo sem humanidade

Nº018

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Diogo Pereirapor Diogo Pereira
diogopereira@w360.pt

nº 018


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Bom dia, seja bem vindo a mais uma Newsletter semanal do W360.PT.

Semana após semana tento elencar as notícias o mais distanciado possível da geografia onde me encontro. Acho que nunca consigo. É difícil, se não mesmo impossível, não sermos influenciados pela nossa ocidentalidade quando é hora de definirmos prioridades no alinhamento da atualidade. Para quem tenta fazer o mesmo exercício noutras partes do mundo será igualmente difícil. Faz parte da génese humana achar que assunto “A” é mais importante que assunto “B”.

Este era o momento ideal para começar a falar da “santa objetividade” inerente ao jornalismo, mas não vou fazê-lo. Vou antes falar da eleição de António Guterres. Serve este preâmbulo inútil para dizer que a notícia da semana é seguramente a nomeação do antigo alto comissário para os refugiados para secretário-geral das Nações Unidas. E não é seguramente por ser português que o destaco. Destaco porque Guterres conseguiu alinhar os membros antagónicos do Conselho de Segurança num processo cristalino como nunca se viu.

António Guterres é o novo secretário-geral das Nações Unidas. É esta a notícia da semana que nos trás esperança para os conturbados momentos que se vivem no globo.

Em Espanha continua o nó político, mas a possibilidade de ele se desatar pode estar mais próxima. Pedro Sanchéz demitiu-se da liderança do PSOE num lamentável espetáculo para o socialismo espanhol, segundo refere o El País em editorial. Como vão ser as coisas daqui para a frente ninguém sabe, mas com esta liderança os socialistas espanhóis tiveram a maior derrota de sempre nas últimas eleições e as sondagens apontam para a possibilidade de resultados ainda mais desastrosos.

A semana começou mal para o presidente colombiano Juan Manuel Santos: depois de anos consecutivos a tentar pôr um ponto final na guerra que opunha as forças políticas da Colômbia e as FARC, Manuel Santos viu os colombianos dizerem, em referendo, que não aceitavam o acordo alcançado. Sem se demover da sua missão, Manuel Santos, disse que não desistiria e começou a trabalhar num novo entendimento. Acabou a semana melhor do que começou: ganhando o Nobel da Paz.

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O Partido dos Trabalhadores Brasileiro (PT) continua aos trambolhões. Desta vez foram as eleições autárquicas do país a espetarem uma faca no já quase cadáver partido de Lula e Dilma. Na primeira volta das 653 camaras que tinha, apenas conseguiu manter 256 e num total de 26 capitais regionais, o PT só ganhou numa: Rio Branco, perdendo o controlo de cidades importantes como S. Paulo. Esta é mais uma consequência dos sucessivos escândalos de corrupção, o processo Lava Jato e, claro, a destituição de Dilma Rousseff.

Se na Colômbia o povo foi contra a vontade do seu líder político, na Hungria o resultado final do referendo que perguntava aos húngaros se aceitavam as quotas de refugiados foi favorável ao presidente Viktor Orbán: uma maioria avassaladora de 98,3% dos votantes respondeu não à pergunta: “A Europa deve ditar a instalação obrigatória de cidadãos não-húngaros na Hungria mesmo sem acordo da Assembleia Nacional?”. Mas há um problema: o referendo não é válido porque só votaram 42% dos eleitores, era preciso que tivessem votado pelo menos 50%.

Esta semana também fica marcada pelo acordo alcançado entre a União Europeia e o Afeganistão que visa estabelecer uma ponte aérea para que todos os afegãos que não obtenham asilo político na Europa, possam ser recebidos pelas autoridades de Cabul. Este acordo é particularmente importante para a União Europeia uma vez que os afegãos são o segundo maior grupo de requerentes de asilo nas fronteiras da Europa.

No Reino Unido Theresa May avançou com uma data para acionar o artigo 50º do Tratado de Lisboa. É a primeira vez que acontece. O final de março de 2017 é a altura apontada para começar a negociar a saída do Reino Unido da UE.

Foi também notícia a visita surpresa do Papa Francisco a Amatrice, depois da cidade italiana ter sido devastada por um terramoto que fez mais de 300 mortos. Francisco tinha demonstrado interesse em visitar a cidade, mas na altura não adiantou uma data. Esta foi a semana escolhida para uma visita “a título privado, sozinho, como padre, bispo e papa, mas sozinho”, de forma a estar “perto das pessoas”.

Na Síria não há tréguas. Depois de um cessar-fogo atribulado de sete dias, Aleppo voltou a estar debaixo de fogo e um dos hospitais da cidade foi bombardeado. Desta forma continua tudo na mesma, à exceção das negociações entre as duas potências envolvidas no conflito que decidiram acabar com as negociações. Na realidade foram os Estados Unidos que anunciaram o fim das conversações bilaterais.

A Newsletter desta semana fica por aqui, volto na próxima.

FRASES

“Trata-se de respeitar a decisão das pessoas, que confiaram nos seus políticos. Os britânicos manifestaram a sua vontade e nós vamos cumpri-la”

Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido anunciando que o trato 50º será acionado até março do próximo ano

“Infelizmente a Rússia falhou em cumprir os seus próprios compromissos e foi igualmente relutante ou incapaz de garantir a adesão do regime sírio aos acordos com os quais Moscovo se comprometeu”

John Kirby, porta-voz do Departamento de Estado americano

“Não vou desistir. Continuarei a procurar a paz até ao último dia da minha presidência”

Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia depois de conhecido o resultado do referendo que mostrou que os colombianos não querem aquele acordo de paz com as FARC

“Hoje, depois da nossa sexta votação, temos um favorito claro e o seu nome é António Guterres.”

Vitaly Churkin, Presidente do Conselho de Segurança da ONU

ROSTOS

Guterres
António Guterres conseguiu chegar ao topo das Nações Unidas graças ao seu mérito profissional. O antigo primeiro-ministro português percorreu um percurso difícil mantendo-se sempre na dianteira da corrida, fazendo parecer fácil esta vitória. Também de parabéns está a ONU que pela primeira vez apresentou um processo cristalino e resistente a jogadas de última hora.

merkel juncker
União Europeia Merkel e Juncker têm que entrar nos rostos desta semana porque deram a cara por mais um flop europeu, mostrando que como algumas economias europeias, a liderança do bloco está abaixo de lixo. A dona da Europa e o senhor que se acha dono da Europa resolveram inventar uma candidata à liderança da ONU para derrubar António Guterres. Kristalina Georgieva, búlgara e vice-presidente da comissão europeia não só não atingiu os objetivos dos seus mandantes como teve um resultado vergonhoso: terceiro lugar… a contar do fim. Fica por explicar porque é que a União Europeia quis, à última da hora, lançar uma nova candidata quando se percebia que Guterres era consensual. A história da necessidade de ser uma mulher de leste está gasta e cheira mal.

NÚMEROS

385

Um estudo do Banco Mundial e da UNICEF conclui que há cerca de 385 milhões de crianças que vivem em agregados familiares com menos de dois euros por mês. Os valores são particularmente expressivos nos países em desenvolvimento onde as crianças que vivem em condições degradantes é quase um quinto.

12801

Número de polícias afastados de funções na Turquia suspeitos de terem ligações ao clérigo Fethullah Gulen, na continuação da “limpeza” de opositores ao regime de Erdogan

5600

Este foi o número de pessoas resgatadas ao largo da Líbia na passada segunda feira numa operação que, segundo a BBC, terá sido uma das maiores desde que começou a crise dos refugiados.

IMPERDÍVEIS

Nos imperdíveis desta semana uma entrevista ao Nobel da Paz recuperada pelo Expresso; a guerra esquecida do Iémen; e o perfil do homem “demasiado inteligente” para ser primeiro ministro feito pelo Público

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