À boleia, o Tiago e a Joana foram até ao Oriente porque “as coisas mundanas” não lhes “enchiam as medidas”

O Tiago e a Joana estavam à procura de uma experiência modificadora e foram até ao Extremo Oriente à boleia, numa viagem ao longo de vários meses.

Tiago e Joana do Partir para Ficar com folhas de boleia com Mianmar como destino
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Regressaram há umas semanas a Lisboa e não estão arrependidos dos últimos meses que passaram fora de Portugal sem o conforto de saber o sítio onde iam dormir, o que iam comer ou até como se iriam deslocar. O Tiago e a Joana estavam à procura de uma experiência que lhes virasse a vida de pernas para o ar e nem sequer a segurança do emprego esteve em causa no momento de pôr as mochilas às costas. A Joana conseguiu uma licença sem vencimento, mas o Tiago não foi de meias medidas e rasgou o contrato de trabalho para se fazer ao caminho.

O muro que separa o Ocidente do Oriente não é de betão, mas existe. Ao longo de todo o percurso, foram mostrando nas redes sociais que atravessar fronteiras a pé pode significar vivenciar experiências mais opostas do que entrar num avião e passar várias horas em cima de um oceano. A hospitalidade é um dos pontos fortes do lado de lá, mas há outros que ajudam a caracterizar aqueles povos que o Tiago e a Joana quiseram conhecer ao detalhe.

Sem medo do fracasso optaram por viajar de uma das formas mais exigentes. Tentaram chegar aos próprios limites, mas talvez não tenham conseguido, mesmo depois de passarem horas à espera de boleias, a dormirem ao relento ou até dentro de uma cadeia. Seguiram à boleia até ao destino que não tinham como certo e passaram dificuldades. No final de tudo e depois de lermos as respostas que nos deram, temos a certeza que voltariam a fazer tudo igual.

Como é que se toma uma decisão tão modificadora da vida como largar os empregos e partir à aventura? 

Estávamos no Alentejo a viajar a pé e a fazer campismo selvagem, e de repente demos por nós a pensar: “daqui a 20 ou 30 anos que memórias teremos dos nossos vintes? Vamos olhar para trás e iremo-nos orgulhar de quê?” As coisas mundanas não nos enchiam as medidas. Queríamos desafiar-nos. Queríamos algo de que nos orgulhassemos. Queríamos fazer coisas maiores que nós.

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Tiveram apoio das pessoas mais próximas ou pediram-vos para desistirem? 

Só falámos da viagem quando juntamos o dinheiro que achávamos necessário. Portanto só dissemos menos de um mês antes de partirmos. E a verdade é que no início não, não sentimos muito apoio. Conseguimos perceber: dizermos que não íamos apanhar qualquer voo de Budapeste até à Índia ou até Timor rimava com loucura para muita gente. Depois de verem a nossa obstinação, aqueles que desconfiavam tornaram-se nossos seguidores assíduos.  

Tiago e Joana do Partir para Ficar sentados às margens do Rio Danúbio com o Parlamento de Budapeste ao fundo
A viagem do Tiago e da Joana começou em Budapeste, na Hungria

Como é que definiram o vosso roteiro? Nunca usaram aviões… 

A ideia inicial era começar em Portugal, mas como já conhecíamos os países até à Hungria, acabámos por decidir começar aí. Demos mais atenção à Europa de Leste e ficamos com mais tempo para a Ásia. Depois havia pontos e países que sempre quisemos conhecer, mas deixamos muito espaço ao improviso. Pensávamos muitas vezes: como será ir a um sítio que nunca ouvimos falar? E lá íamos nós. Em todos os países fomos a cidades e vilas que desconhecíamos por completo. Aliás, a boleia era um propiciador disso mesmo.  

É fácil circular à boleia ou recorrer a transportes públicos quando os hábitos e as culturas desses países parecem tão diferentes das nossas? 

Fizemos mais de 95% do trajeto à boleia. Podíamos ter sido românticos e ter feito a viagem totalmente desta forma, mas na Ucrânia, por exemplo, queríamos muito andar nas míticas carruagens soviéticas, e viajamos num comboio noturno. Ou no Laos, estávamos há três horas e meia a pedir boleia e ninguém parava, apanhamos um autocarro. Antes de sermos românticos tentamos ser pragmáticos. 

Tiago e Joana do Partir para Ficar em Koh Rong Sanloem
O Tiago e a Joana foram da Europa ao Extremo Oriente numa viagem que durou quase um ano

A pergunta da praxe para quem se lança à aventura por países desconhecidos e tão mal afamados: não tiveram medo? Houve algum momento em que tenham estado em perigo?

Os que fizeram soar as sirenes foram o Irão e o Paquistão. Não percebemos porquê: sentimo-nos sempre seguros, andávamos sozinhos de dia e de noite, apanhamos centenas de boleias, fizemos campismo selvagem. Nunca – nem por uma vez – sentimos perigo, nunca recebemos menos que sorrisos. Se houve atentados no Paquistão? Houve. Mas também os houve em Londres, Barcelona, Manchester, Nice, Paris. A diferença é que dois dias depois já ninguém se lembra e vai a estes destinos fazer compras. No Paquistão – podem passar 10 anos – que todos ainda dizem que não é seguro, que são um país de terroristas. Não estamos a hiperbolizar quando dizermos que no Médio Oriente nos sentimos tão ou mais seguros que em Lisboa. Todas as semanas temos ouvido falar de tiroteios e mortes em série nos Estados Unidos da América e ninguém diz que este país é perigoso, porquê?

Para entrarem em alguns países fizeram uma espécie de estudo da cultura para não cometerem “erros”. Como é que se faz esse trabalho de casa e porque é que se faz esse trabalho de casa? 

Sim. Antes da cultura estudamos a questão dos vistos, pois fizemos todos on the road. Fizemos um esboço de roteiro em alguns países e cidades. Depois debruçamo-nos também sobre os costumes de algumas zonas. Fizemos este estudo porque queríamos inserir-nos sempre que conseguíssemos na cultura de cada país, e o primeiro passo para isso é não a ferir. É importante saber que no Irão as mulheres têm que andar de véu, e os homens não podem andar de calções, assim como é importante saber que no Laos, por exemplo, eles deitam-se às nove da noite e que não é fixe fazer barulho na rua depois dessa hora. Mas é ainda mais importante saber que ir a restaurantes ou cafés ocidentais destrói a cultura destes países. A procura dita a oferta: se os turistas querem ir para o sudeste asiático comer comida ocidental e ouvir música americana, vão fechar os restaurantes locais para abrirem os que são ‘para o turista’. Não são só as portas dos restaurantes locais que se fecham, são também as da cultura local.

Vários Barcos parados no Vietname. Foto de de Partir para Ficar
O Vietname foi um dos países do roteiro

Quando chegaram ao Myanmar, antiga Birmânia, tinham uma ideia previamente criada: “a informação que nos tinha chegado não era muita. A que chegava não era assim tão favorável. Quando atravessamos a fronteira eram misteriosos e tímidos os sorrisos dos que nos cumprimentavam nas ruas”. Mas saíram de lá com uma ideia completamente diferente: “Saímos do país surpreendidos com a sincera simpatia e generosidade dos que nos receberam”. Isto aconteceu-vos muitas vezes ao longo da viagem?

Temos uma história engraçada. Na Hungria chegamos a uma vilaseca em que o alojamento era mega caro, tentamos acampar, mas não encontrávamos parques para isso. Entretanto começa a chover. Vimos uma casa com um terreno livre ao lado e pedimos ao proprietário para esticar a tenta até à próxima manhã. Não deixou. Ainda estávamos na Europa e houve uma mini-tempestade e choveu dentro da tenda. Toda a nossa roupa, livros, sacos cama, estava molhado. Não tínhamos nada seco. Nessa noite dormimos ao relento. Uma senhora vê-nos e vem oferecer um cobertor. Na manhã seguinte vem pedir dinheiro pelo empréstimo. Ficamos verdadeiramente tristes. Não pelo dinheiro, mas porque nos apercebemos que o que a moveu não foi o altruísmo – como pensamos – mas o capitalismo.

Quando chegamos à Ásia as pessoas chamavam-nos para as suas casas quando nos viam a montar a tenda. Dormimos em dezenas de casas de locais, em mesquitas, em mosteiros budistas, as pessoas vinham oferecer-nos fruta, falar connosco, muitas vezes só saber se estávamos bem. Não sabemos o que se perdeu ao longo dos anos, mas na europa as pessoas estão demasiadamente distantes, isoladas, desconfiadas. A hospitalidade é a imagem de marca de grande parte da Ásia, especialmente dos países muçulmanos. Saímos sempre muito surpreendidos, principalmente dos que nos diziam ser os mais perigosos. É por isso que dissemos várias vezes: desliguem a televisão e vão ver com os vossos olhos. 

A vossa página está cheia de rostos. As pessoas são mesmo um dos ingredientes mais importantes de uma viagem? 

Sem dúvida. Chegámos a ir para uma aldeia no Irão, a dormir com três primos. A casa era a garagem e uma casa de banho. A aldeia não tinha nada para ver. Ficámos lá três dias só a conhecer o quotidiano daquelas pessoas, a comer feijão com pão, a aprender jogos antigos. Clichê ou não adorámos conhecer as idiossincrasias de cada cultura, as pequenas particularidades que os torna diferentes dos outros povos. Aquela cena de ir aos sítios instagramaveis, tirar umas fotos bonitas, voltar para o hostel, postar, e seguir para a próxima cidade é algo que não nos diz muito.

Como é que se toma uma decisão tão modificadora da vida como largar os empregos e partir à aventura?  Estávamos no Alentejo a viajar a pé e a fazer campismo selvagem, e de repente demos por nós a pensar: “daqui a 20 ou 30 anos que memórias teremos dos nossos vintes? Vamos olhar para trás e iremo-nos orgulhar de quê?” As coisas mundanas não nos enchiam as medidas. Queríamos desafiar-nos. Queríamos algo de que nos orgulhassemos. Queríamos fazer coisas maiores que nós. Tiveram apoio das pessoas mais próximas ou pediram-vos para desistirem?  Só falámos da viagem quando juntamos o dinheiro que achávamos necessário. Portanto só dissemos menos de um mês antes de partirmos. E a verdade é que no início não, não sentimos muito apoio. Conseguimos perceber: dizermos que não íamos apanhar qualquer voo de Budapeste até à Índia ou até Timor rimava com loucura para muita gente. Depois de verem a nossa obstinação, aqueles que desconfiavam tornaram-se nossos seguidores assíduos.   Como é que definiram o vosso roteiro? Nunca usaram aviões...  A ideia inicial era começar em Portugal, mas como já conhecíamos os países até à Hungria, acabámos por decidir começar aí. Demos mais atenção à Europa de Leste e ficamos com mais tempo para a Ásia. Depois havia pontos e países que sempre quisemos conhecer, mas deixamos muito espaço ao improviso. Pensávamos muitas vezes: como será ir a um sítio que nunca ouvimos falar? E lá íamos nós. Em todos os países fomos a cidades e vilas que desconhecíamos por completo. Aliás, a boleia era um propiciador disso mesmo.   É fácil circular à boleia ou recorrer a transportes públicos quando os hábitos e as culturas desses países parecem tão diferentes das nossas?  Fizemos mais de 95% do trajeto à boleia. Podíamos ter sido românticos e ter feito a viagem totalmente desta forma, mas na Ucrânia, por exemplo, queríamos muito andar nas míticas carruagens soviéticas, e viajamos num comboio noturno. Ou no Laos, estávamos há três horas e meia a pedir boleia e ninguém parava, apanhamos um autocarro. Antes de sermos românticos tentamos ser pragmáticos.  A pergunta da praxe para quem se lança à aventura por países desconhecidos e tão mal afamados: não tiveram medo? Houve algum momento em que tenham estado em perigo? Os que fizeram soar as sirenes foram o Irão e o Paquistão. Não percebemos porquê: sentimo-nos sempre seguros, andávamos sozinhos de dia e de noite, apanhamos centenas de boleias, fizemos campismo selvagem. Nunca – nem por uma vez – sentimos perigo, nunca recebemos menos que sorrisos. Se houve atentados no Paquistão? Houve. Mas também os houve em Londres, Barcelona, Manchester, Nice, Paris. A diferença é que dois dias depois já ninguém se lembra e vai a estes destinos fazer compras. No Paquistão – podem passar 10 anos – que todos ainda dizem que não é seguro, que são um país de terroristas. Não estamos a hiperbolizar quando dizermos que no Médio Oriente nos sentimos tão ou mais seguros que em Lisboa. Todas as semanas temos ouvido falar de tiroteios e mortes em série nos Estados Unidos da América e ninguém diz que este país é perigoso, porquê? Para entrarem em alguns países fizeram uma espécie de estudo da cultura para não cometerem "erros". Como é que se faz esse trabalho de casa e porque é que se faz esse trabalho de casa?  Sim. Antes da cultura estudamos a questão dos vistos, pois fizemos todos on the road. Fizemos um esboço de roteiro em alguns países e cidades. Depois debruçamo-nos também sobre os costumes de algumas zonas. Fizemos este estudo porque queríamos inserir-nos sempre que conseguíssemos na cultura de cada país, e o primeiro passo para isso é não a ferir. É importante saber que no Irão as mulheres têm que andar de véu, e os homens não podem andar de calções, assim como é importante saber que no Laos, por exemplo, eles deitam-se às nove da noite e que não é fixe fazer barulho na rua depois dessa hora. Mas é ainda mais importante saber que ir a restaurantes ou cafés ocidentais destrói a cultura destes países. A procura dita a oferta: se os turistas querem ir para o sudeste asiático comer comida ocidental e ouvir música americana, vão fechar os restaurantes locais para abrirem os que são ‘para o turista’. Não são só as portas dos restaurantes locais que se fecham, são também as da cultura local. Quando chegaram ao Myanmar, antiga Birmânia, tinham uma ideia previamente criada: "a informação que nos tinha chegado não era muita. A que chegava não era assim tão favorável. Quando atravessamos a fronteira eram misteriosos e tímidos os sorrisos dos que nos cumprimentavam nas ruas". Mas saíram de lá com uma ideia completamente diferente: "Saímos do país surpreendidos com a sincera simpatia e generosidade dos que nos receberam". Isto aconteceu-vos muitas vezes ao longo da viagem? Temos uma história engraçada. Na Hungria chegamos a uma vilaseca em que o alojamento era mega caro, tentamos acampar, mas não encontrávamos parques para isso. Entretanto começa a chover. Vimos uma casa com um terreno livre ao lado e pedimos ao proprietário para esticar a tenta até à próxima manhã. Não deixou. Ainda estávamos na Europa e houve uma mini-tempestade e choveu dentro da tenda. Toda a nossa roupa, livros, sacos cama, estava molhado. Não tínhamos nada seco. Nessa noite dormimos ao relento. Uma senhora vê-nos e vem oferecer um cobertor. Na manhã seguinte vem pedir dinheiro pelo empréstimo. Ficamos verdadeiramente tristes. Não pelo dinheiro, mas porque nos apercebemos que o que a moveu não foi o altruísmo – como pensamos – mas o capitalismo. Quando chegamos à Ásia as pessoas chamavam-nos para as suas casas quando nos viam a montar a tenda. Dormimos em dezenas de casas de locais, em mesquitas, em mosteiros budistas, as pessoas vinham oferecer-nos fruta, falar connosco, muitas vezes só saber se estávamos bem. Não sabemos o que se perdeu ao longo dos anos, mas na europa as pessoas estão demasiadamente distantes, isoladas, desconfiadas. A hospitalidade é a imagem de marca de grande parte da Ásia, especialmente dos países muçulmanos. Saímos sempre muito surpreendidos, principalmente dos que nos diziam ser os mais perigosos. É por isso que dissemos várias vezes: desliguem a televisão e vão ver com os vossos olhos.  A vossa página está cheia de rostos. As pessoas são mesmo um dos ingredientes mais importantes de uma viagem?  Sem dúvida. Chegámos a ir para uma aldeia no Irão, a dormir com três primos. A casa era a garagem e uma casa de banho. A aldeia não tinha nada para ver. Ficámos lá três dias só a conhecer o quotidiano daquelas pessoas, a comer feijão com pão, a aprender jogos antigos. Clichê ou não adorámos conhecer as idiossincrasias de cada cultura, as pequenas particularidades que os torna diferentes dos outros povos. Aquela cena de ir aos sítios instagramaveis, tirar umas fotos bonitas, voltar para o hostel, postar, e seguir para a próxima cidade é algo que não nos diz muito. Participaram num casamento paquistanês. Contem-nos tudo. Como é participar num casamento paquistanês?  Foi fabuloso. Estávamos a fazer couchsurfing e o host convidou-nos para ir com ele. Vestiram-nos com roupas tradicionais e lá fomos nós. A comida não era muita: um prato, uma bebida, uma sobremesa, e estava toda a gente imensamente feliz. Às vezes mais é menos. Ah, obviamente que demos um pezinho de dança. Na fase final desta viagem, o Tiago acabou sozinho porque a licença sem vencimento da Joana acabou. O objetivo era chegar a Timor. Chegou a Timor, mas acabou por ser preso. O que é que aconteceu exatamente?  Como sabemos na Ásia ainda sobra uma pequena corrupção. Há fronteiras em que o visto são 30 dólares e cobram, indevidamente, 35. Há serviços que tentam cobrar a mais, ou sendo gratuitos tentam que demos algum dinheiro extra. Sabia que os 30 dias de visto para a indonésia não eram suficientes para tantas ilhas e, portanto, sabia que teria que pagar uma quantia por cada dia a mais. Quando cheguei à fronteira da Indónesia, em vez dos seis euros que estava à espera, pedem-me 20 por cada dia que fiquei a mais. Ri-me. Acham que vou cair nessa, perguntei. Repetiam que me iam prender se não pagasse. Achava que era bluff e dizia com o meu ar mais descontraído: então prendam. E prenderam. No segundo dia lá me mostraram a legislação. Tinha mudado recentemente. Lá vou eu escoltado para levantar o dinheiro, mas o multibanco não aceita o meu cartão. Vamos a outro, depois a outro, e a outro. Não consigo levantar em nenhum. Mais um dia a dormir na cela. No terceiro dia transfiro o dinheiro através da Western Union e finalmente consigo o desejado dinheiro. Entre pagar a multa, burocracias, papeladas, falar com umas pessoas, depois com o superior, depois com outra pessoa que afinal este é que é o superior, e lá me libertam. “Estás livre, podes ir”, dizem-me. Como já eram cinco da tarde – hora do fecho da fronteira – não ia conseguir entrar em Timor naquele dia. Dou uma espreitadela no booking e reparo que os hotéis são caríssimos naquela zona. Vou ter com o superior e pergunto: ‘posso ficar aqui a dormir mais uma noite?’ Primeiro toda a sala pára a olhar para mim. Passados uns segundos todos se riam a bandeiras despregadas. Na manhã seguinte estava eu a entrar naquele que viria a ser o meu último país: Timor-Leste. Numa das vossas publicações olham criticamente para aquilo que parece ser o mundo das viagens atualmente: "Não acreditamos no egocentrismo. A sério que estás num país com uma cultura fascinante e só consegues mostrar Eu na praia, Eu na cascata, Eu no sunset? As pessoas locais só interessam se for para apareceram nas nossas fotos, na ânsia de nos darem likes, não é?" Acham que viajar é cada vez mais mostrar uma realidade que nem sempre é verdadeira? Foi um assunto de que nos apercebemos e debatemos depois de partir, tentando sempre dar os nossos argumentos de forma construtiva: muito do que se mostra nas redes sociais não é genuíno. E isto não tem nada que ver com o tipo de viagem: podes ficar em hotéis caros e ser autêntico e ser backpacker e não o ser. Seguimos muitas pessoas incríveis que são genuínas e que têm formas de viajar incríveis. Não temos nada contra os influencers se, por exemplo, estas pessoas inspirarem e influenciarem outras a serem mais conscientes ambientalmente em viagem, isso é ótimo. No entanto há o reverso da moeda, são aqueles que querem ser influencers, mas no fundo acabam por ser eles os influenciados. Querem fazer carreira à força e acabam por decalcar outras contas: tiram todos fotos iguais, distorcem todos as cores do céu e da água e até criam passarinhos que não existem. Fazem todos as mesmas poses, vão todos aos mesmos lugares. Basta seguir uma destas contas, porque no fundo são todas iguais. Todos nós queremos ser lidos, chegar a mais pessoas, ter seguidores: disso não há dúvidas. Mas vale tudo para isso?  Os jornais podem ser uma boa analogia, podes ser um Jornal Público ou um Correio da Manhã.  Podemos perguntar quanto custa uma aventura destas?  Depende muito do tipo de viagem de cada um. Há quem gaste o dobro do que gastamos, mas também conhecemos quem gastasse metade. Nós gastámos entre nove e dez euros por dia, cada um. Começando a contar no dia 1, durante onze meses – excluindo o voo de regresso – gastamos cerca três mil Euros cada. Agora que voltaram, e tendo em conta tudo aquilo que partilharam - e a forma como partilharam -, presumimos que não se arrependem daquilo que fizeram. Bem pelo contrário. Além de todo o crescimento pessoal, dos banhos de humildade e das amizades que fizemos para a vida, esta viagem ficará para sempre marcada nas nossas vidas.
Crianças no Paquistão sempre com um sorriso no rosto

Participaram num casamento paquistanês. Contem-nos tudo. Como é participar num casamento paquistanês? 

Foi fabuloso. Estávamos a fazer couchsurfing e o host convidou-nos para ir com ele. Vestiram-nos com roupas tradicionais e lá fomos nós. A comida não era muita: um prato, uma bebida, uma sobremesa, e estava toda a gente imensamente feliz. Às vezes mais é menos. Ah, obviamente que demos um pezinho de dança.

Tiago e Joana do Partir para Ficar participam num casamento paquistanês
O Tiago e a Joana foram convidados de um casamento paquistanês

Na fase final desta viagem, o Tiago acabou sozinho porque a licença sem vencimento da Joana acabou. O objetivo era chegar a Timor. Chegou a Timor, mas acabou por ser preso. O que é que aconteceu exatamente? 

Como sabemos na Ásia ainda sobra uma pequena corrupção. Há fronteiras em que o visto são 30 dólares e cobram, indevidamente, 35. Há serviços que tentam cobrar a mais, ou sendo gratuitos tentam que demos algum dinheiro extra. Sabia que os 30 dias de visto para a indonésia não eram suficientes para tantas ilhas e, portanto, sabia que teria que pagar uma quantia por cada dia a mais. Quando cheguei à fronteira da Indónesia, em vez dos seis euros que estava à espera, pedem-me 20 por cada dia que fiquei a mais. Ri-me. Acham que vou cair nessa, perguntei. Repetiam que me iam prender se não pagasse. Achava que era bluff e dizia com o meu ar mais descontraído: então prendam. E prenderam.

No segundo dia lá me mostraram a legislação. Tinha mudado recentemente. Lá vou eu escoltado para levantar o dinheiro, mas o multibanco não aceita o meu cartão. Vamos a outro, depois a outro, e a outro. Não consigo levantar em nenhum. Mais um dia a dormir na cela.

No terceiro dia transfiro o dinheiro através da Western Union e finalmente consigo o desejado dinheiro. Entre pagar a multa, burocracias, papeladas, falar com umas pessoas, depois com o superior, depois com outra pessoa que afinal este é que é o superior, e lá me libertam. “Estás livre, podes ir”, dizem-me. Como já eram cinco da tarde – hora do fecho da fronteira – não ia conseguir entrar em Timor naquele dia. Dou uma espreitadela no booking e reparo que os hotéis são caríssimos naquela zona. Vou ter com o superior e pergunto: ‘posso ficar aqui a dormir mais uma noite?’ Primeiro toda a sala pára a olhar para mim. Passados uns segundos todos se riam a bandeiras despregadas. Na manhã seguinte estava eu a entrar naquele que viria a ser o meu último país: Timor-Leste.

Numa das vossas publicações olham criticamente para aquilo que parece ser o mundo das viagens atualmente: “Não acreditamos no egocentrismo. A sério que estás num país com uma cultura fascinante e só consegues mostrar Eu na praia, Eu na cascata, Eu no sunset? As pessoas locais só interessam se for para apareceram nas nossas fotos, na ânsia de nos darem likes, não é?” Acham que viajar é cada vez mais mostrar uma realidade que nem sempre é verdadeira?

Foi um assunto de que nos apercebemos e debatemos depois de partir, tentando sempre dar os nossos argumentos de forma construtiva: muito do que se mostra nas redes sociais não é genuíno. E isto não tem nada que ver com o tipo de viagem: podes ficar em hotéis caros e ser autêntico e ser backpacker e não o ser. Seguimos muitas pessoas incríveis que são genuínas e que têm formas de viajar incríveis. Não temos nada contra os influencers se, por exemplo, estas pessoas inspirarem e influenciarem outras a serem mais conscientes ambientalmente em viagem, isso é ótimo. No entanto há o reverso da moeda, são aqueles que querem ser influencers, mas no fundo acabam por ser eles os influenciados. Querem fazer carreira à força e acabam por decalcar outras contas: tiram todos fotos iguais, distorcem todos as cores do céu e da água e até criam passarinhos que não existem. Fazem todos as mesmas poses, vão todos aos mesmos lugares. Basta seguir uma destas contas, porque no fundo são todas iguais. Todos nós queremos ser lidos, chegar a mais pessoas, ter seguidores: disso não há dúvidas. Mas vale tudo para isso?  Os jornais podem ser uma boa analogia, podes ser um Jornal Público ou um Correio da Manhã. 

Podemos perguntar quanto custa uma aventura destas? 

Depende muito do tipo de viagem de cada um. Há quem gaste o dobro do que gastamos, mas também conhecemos quem gastasse metade. Nós gastámos entre nove e dez euros por dia, cada um. Começando a contar no dia 1, durante onze meses – excluindo o voo de regresso – gastamos cerca três mil Euros cada.

Agora que voltaram, e tendo em conta tudo aquilo que partilharam – e a forma como partilharam -, presumimos que não se arrependem daquilo que fizeram.

Bem pelo contrário. Além de todo o crescimento pessoal, dos banhos de humildade e das amizades que fizemos para a vida, esta viagem ficará para sempre marcada nas nossas vidas.