Curiosidades sobre Budapeste que tem mesmo que saber antes de partir

Budapeste merece mais do que ser conhecida como a Paris de leste, por isso a Carina Santos conta um pouco mais sobre a história da cidade do Danúbio.

Ponte das Correntes de Budapeste sobre o rio Danúbio.
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Podemos dizer que a história da cidade mais populosa da Hungria se encontra intimamente relacionada com a história do próprio país. Sabemos que uma pequena povoação celta deu origem à povoação romana de Aquincum, que veio a ser a capital da região da Baixa Panónia, uma das províncias do então Império Romano, constituída no ano 103 d.C. pelo imperador Trajano. 

Inicialmente pensada para ser um acampamento militar romano, Aquincum ganhou fortificações, mas paralelamente foi-se desenvolvendo a nível comercial, tornando-se uma das grandes povoações romanas da Panónia. A esta área corresponde atualmente o distrito de Óbuda, em Budapeste. Com o desenvolvimento romano surgiram as primeiras estradas, os anfiteatros, os banhos públicos (termas), e as casas que albergavam os militares romanos lá estacionados. 

No século III existem já relatos de invasões de povos Godos nas regiões danubianas, fustigando as fronteiras romanas. Provavelmente expulsos da região da atual Ucrânia por outros povos migratórios, os Godos infligiram aos exércitos romanos várias derrotas na região da Panónia. O destino destes povos é incerto. Sabe-se que procuravam um território para ocupar a longo prazo, e alguns terão mesmo ficado por lá, mas uma grande parte manteve-se, provavelmente, em movimento.

Com a morte do imperador Teodósio e a separação definitiva do Império Romano do Ocidente e do Império Romano do Oriente em 395, as fronteiras do Império Romano do Ocidente encontravam-se fragilizadas, e no século V, chegaram à região vários outros povos migratórios, fugindo das incursões dos Hunos, oriundos da Ásia. 

Foi, no entanto, necessário esperar até ao século IX para que os húngaros chegassem, também eles obrigados, a migrar devido à expansão do Primeiro Império Búlgaro (séculos VII – XI). Foi nas planícies do Danúbio, na Panónia que se fixou, na altura a tribo Magyar, assimilando ou escravizando os eslavos que já lá habitavam.

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O reino da Hungria terá surgido cerca de um século depois, mas em 1241 sofreu uma pesada derrota às mãos do exército mongol. Foram várias as cidades e vilas atacadas pelos mongóis que pilharam e destruíram tudo por onde passaram. Foi por esta altura que, tendo a capital húngara, Esztergom, sido cercada e quase totalmente destruída por catapultas, o rei Béla IV decidiu focar a sua atenção na reconstrução de Buda, e a fez sua capital após a invasão.

O castelo de Buda e suas fortificações e muralha foram então mandadas erigir pelo monarca, que ficou conhecido na história húngara como o “segundo pai fundador” da Hungria (o primeiro terá sido o rei Estevão I que reinou entre c.1000 – 1038).

Estátua da Pequena Princesa com o Castelo de budapeste em fundo, iluminado durante a noite
Estátua da Pequena Princesa, da autoria de László Marton, com o Castelo de Buda em fundo. Foto de Diogo Pereira

Durante o reinado de Matias Corvino (r. 1458-1490), a cidade de Buda terá tido um papel cultural de relevo com o advento dos ideias renascentistas. A Biblioteca Corviniana, localizada no Castelo de Buda, deteve no século XV, a maior coleção da Europa de crónicas históricas, assim como de obras de filosofia e ciências. Em 1526, após a Batalha de Mohács a Hungria ficou fracionada em três parcelas: o Reino da Hungria (territórios sob o controlo da monarquia dos Habsburgos), Principado da Transilvânia, e a terceira parcela da Hungria ficou sob o cunho do Império Otomano, que continuou as suas campanhas de expansão.

Em 1541 Buda foi conquistada pelos turcos após duas tentativas anteriores, tendo ficado sob domínio Otomano por mais de 140 anos. A parte oeste da cidade integrou o Reino da Hungria sob o domínio dos Habsburgos. Em 1686 uma nova campanha com o cunho da Santa Liga, conseguiu entrar na cidade. Iniciava-se assim a reconquista aos Otomanos, expulsos definitivamente da região em 1718.

A partir de 1804 a Hungria tornou-se parte integrante do Império Austríaco, embora tivesse mantido sempre um certo grau de autonomia. Em 1838, dez anos antes das revoltas contra o poder austríaco, um cataclismo natural abateu-se sobre a capital húngara. Após um Inverno rigoroso com formação de calotes de gelo e solidificação do rio Danúbio em várias regiões, iniciou-se, com a chegada da Primavera em março, o degelo. As margens do rio subiram até níveis máximos (9,3 metros no dia 15 de março). Sem quaisquer tipo de bloqueios contra-inundação, a cidade de Peste foi fortemente afetada, especialmente após o colapso de uma barragem. A população, apanhada de surpresa, pouco pôde fazer.

Ponte das Correntes de Budapeste sobre o rio Danúbio.
A Ponte das Correntes é umas das mais carismáticas travessias de Budapeste. Foto de Diogo Pereira

O nível das águas subiu tão rapidamente que poucos tiveram tempo de resgatar animais e pertences. A maioria da população fugiu para os telhados e zonas mais altas da cidade apenas com a roupa que levava vestida. Foram contabilizadas pelo menos 153 vítimas mortais. Por ser mais plana, a zona de Peste foi a mais afectada. Aqui vários edifícios foram destruídos não só pela força da água, mas também devido ao embate dos calotes de gelo que entretanto se haviam soltado e flutuavam juntamente com detritos. Incapaz de escoar tanta água, e com o amontoamento dos calotes que ainda estavam a derreter, a situação piorou durante os dias seguintes. Só passados sete dias, o nível das águas começou a descer.

Além das vítimas mortais, cerca de 50 mil pessoas ficaram desalojadas e mais de 20 mil ficaram na mais completa miséria. Na cidade de Peste, cerca de 2300 casas colapsaram e 829 estruturas apresentavam danos significativos. Em Buda foram destruídos 204 edifícios, sendo que 262 necessitaram de reparação imediata. A reconstrução e o planeamento de um sistema eficaz de barragens e contra-inundações, levaram anos a ser implementados.

Duas personalidades destacaram-se neste período: o maestro Franz Liszt, estrela emergente na altura, organizou em Viena diversos concertos musicais de beneficiência para as vítimas das inundações; e o aristocrata Baron Miklós Wesselényi, político húngaro proeminente e desportista excecional (hipismo e natação), tomou a iniciativa após o início da subida das águas de comandar uma equipa de resgate. Remando ele próprio, pequenas embarcações, Wesselényi terá salvo vários habitantes das águas geladas, e resgatado sobreviventes que se haviam refugiado em chaminés e telhados.

Em 1867 foi assinado o compromisso entre os Reinos da Áustria e da Hungria que deu origem ao Império Austro-Húngaro. E, finalmente, a 17 de novembro de 1873, a junção das localidades de Buda, Óbuda e Peste deu origem à cidade que é hoje a capital da Hungria: na margem direita do Danúbio, Buda; na margem esquerda Peste, unidas pela primeira vez em 1849 pela ponte suspensa Széchenyi Lánchid.P