Khanimanbu, Moçambique

Este é de facto aquilo a que muitos chamam ‘país de contrastes’. Ao abismo entre o extraordinário da Natureza e a miséria da condição humana, só acrescentaria o ‘humor’.

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Visitei Moçambique com visto de turista, mas na verdade o motivo da viagem prendeu-se com a família. E, talvez por isso mesmo, estas 3 semanas tenham sido muito mais do que umas férias num sítio paradisíaco.

A minha irmã e o meu cunhado (espero que não se importem que os mencione, já que sem eles nada disto teria sido possível) trabalham e vivem em Moçambique há cerca de 5 anos. E depois de tantas viagens a Portugal, tinha chegado a hora de sermos nós, um grupo de 4 (fa)melgas já feitas e criadas, a perder o medo e visitá-los na terra onde eles escolheram viver as suas vidas em conjunto.

Deste país, conheci o sul. Maputo e Inhambane foram as províncias onde passamos mais tempo e, tendo o Centro (Beira) e o Norte (Nampula, Pemba) muitas diferenças e histórias, assim como o interior (Tete, Lichinga) e as ilhas (Ilha de Moçambique), estes mostraram-nos já um conjunto de realidades bem transversal e sugestivo do que é a essência de Moçambique.

Podemos começar então por dizer que, como a grande maioria dos países africanos, este é de facto aquilo a que muitos chamam ‘país de contrastes’. Ao abismo entre o extraordinário da Natureza e a miséria da condição humana, só acrescentaria o ‘humor’. Moçambique, pelos meus olhos, é um país de (profundos) contrastes, mas com imenso sentido de relativização e de ligeireza. Talvez seja essa a sua principal característica e o que o difere dos restantes – uma capacidade de ‘se rir de si próprio’ contagiante e de tom quase infantil, que nos faz querer andar para a frente de forma auspiciosa perante uma rotina ainda por vezes tão negra.

Maputo. A cidade, pois da província apenas percorri, e de passagem, Matola e Ressano Garcia e pouco mais vi que miséria e lixo (salvaguardando ainda assim o que haverá de bom e interessante nestes lugares, mas que não conheci – ou não fosse este um país de contrastes). E contudo, minto: pois conheci ainda Marracueche, e nele as bonitas praias de Macaneta. Agora sim, a cidade. Capital nas estruturas e no ritmo, na diversidade de pessoas e de zonas, apresenta-se tão desorganizada e descuidada como bipolarizada. O peso dos grandes investidores (China, Japão, Portugal, África do Sul, Índia) faz-se sentir e apenas o estatuto do Governo os equivale no poder e autoridade. Na cidade existem essencialmente 3 tipos de pessoas: o ‘branco’, estrangeiro formado, endinheirado ou empoderado; o ‘preto’, povo de baixa instrução, matreco (oportunista) ou artista/vendedor ou empregado; e o ‘moçambicano’, o senhor que manda e gere a República de Moçambique, não necessariamente formado, mas de certo emponderado e endinheirado, político ou polícia ou bancário. Contudo, parece-me começar, e bem, a emergir um quarto tipo: o ‘jovem moçambicano’, aquele que, não sendo necessariamente só de famílias ricas, arranja forma de continuar a estudar  e desenvolve competências que o preparam para um dia mais tarde vir a ter uma posição profissional (mais) igual ao do ‘branco’ e ter um papel social mais consciente e ativo. Se não fugirem todos para a Europa, ou ‘desistirem’ no caminho, talvez daqui a duas gerações estes jovens se ‘façam ouvir’ e ganhem lugar, através de um respeito agora conquistado, como agentes modificadores internos do tecido social e profissional deste país – que deles bem precisa.

Nas ruas, a contrastar novamente, vemos paisagem citadina engomada, do mais moderno europeu, como logo a seguir o shopping ou o casino dá lugar às barracas intermináveis da Vodacom ou da Coca-Cola – as únicas com direito a pintura e término de obra, num mar de cimento, barro e capim. Tal como uma grande metrópole, divide-se em bairros degradantes (sem água potável, esgoto ou luz) e zonas mais elegantes (hotéis, embaixadas e condomínios fechados), com direito a praia na baía e marginal pela Costa do Sol, jardins (Tunduro, dos Professores, dos Namorados) e mercados (do Peixe, Municipal, Janet) cheios de tons castanhos, verdes e alaranjados, feiras (FEIMA) agitadas com marrabenta (música tradicional), capulana (tecido muito usado no vestuário) e matapa (comida típica), museus tímidos e igrejas diversas, restaurantes para todos os gostos e hotéis chiques na Polana.

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O pormenor e a conservação são conceitos ainda muito estrangeiros, pelo que a cidade nutre que as vistas se façam acompanhar de menos lixo e mais pintura. O trânsito, por outro lado, é um fenómeno: para além da troca dos sentidos, numa confusão que aguça todo o tipo de engenhos, a tranquilidade reina de um forma surpreendentemente eficaz. E o Metical (moeda oficial) pode subir cada vez mais, mas o chapa (carrinha da marca Nissan muito usada como transporte público, mas de cariz particular) nunca parece estar menos lotado! Um reparo ingrato, numa cidade em que a rede de transportes públicos (autocarro, comboio, metro) é ainda praticamente inexistente, mas o passeio não chega para acolher as largas centenas de BMWs e Mercedes com matrícula DC (corpo diplomático) que tanto gritam por novos parques de estacionamento. Paralelamente, e apertando as ruas, cantam ainda as tchovas (carrinhos-de-mão grandes carregados de fruta, peixe seco ou ferro-velho) e as tchopelas (vulgo tuc-tuc em Portugal) extra adornadas da Sumol ou da Bosh, numa animação que primeiro se estranha, mas depois de facto se entranha.

As crianças de farda azul clara vão a pé ou no chapa escolar para a EPC (Escola Primária Completa) e os adolescentes de farda branca para a Escola Secundária. Os jovens que seguem para a universidade, já seguem com a sua identidade e por diferentes caminhos. O machibombo (transporte escolar público) não chega para todos e, normalmente, leva a minoria que ‘sobra’ para as escolas Portuguesa, Francesa ou Americana.

De política não se fala no café. Samora Machel (primeiro Presidente da República do país) é o único nome consensual e identidade bem expressa por toda a cidade em forma de monumento, nome de rua ou de edifício. Nos 40 anos ainda tão verdinhos de democracia moçambicana, a diplomacia e a liberdade de expressão ainda se confundem um tanto ou quanto com o medo e a intimidação. Por todo o lado da cidade, o partido vencedor (FRELIMO) exibe ostentosamente o seu líder e atual presidente Filipe Nyusi, enquanto mais a norte Afonso Dhlakama não se faz esquecer através do seu ruidoso e bélico partido (RENAMO), o maior da oposição. O povo, querendo é paz e fatigado de tiroteios trimestrais ali na curva, ordeiramente finge que não há mal em não poder aproximar-se, literalmente, da Presidência da República e atravessa a rua de modo a ficar longe do passeio carregado de metrelhadoras. A foto ou o vídeo são assim filhas do mesmo mal, pelo que não convém arriscar muito quando por perto de assets, materiais ou humanos, do estado.

Mas não esqueçamos que aqui o calor é sério e húmido e o dia começa às seis horas da manhã: o trabalho é para se ir fazendo e, na terra do mosquito, o stress não ajuda. O cumprimento desapressado é algo importante e o negociar torna-se uma arte à medida que se desenrola. Em Changana (dialeto usal da província) ou em Português, o importante é falar de sílaba bem aberta e deixar o ritmo da conversa dar espaço ao sorriso antes escondido pela timidez e desconfiança pelo desconhecido. E, voilá, eis um dos encantos de Moçambique – a amabilidade das pessoas.

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Passemos enfim para Inhambane – terra apelidada por Vasco da Gama de ‘de boa gente’. Província turística de coqueiros a perder de vista e praias que não se querem nunca deixar. Mas comecemos pelo início, no caminho para o paraíso. Porque as mangas e cajus na Macia, as Lagoas de Quissico e o carvão em Chissibuca, não são coisa de beleza diminuta, e nos longos caminhos, largos tanto de estrada como de horas, todas estas relíquias enganam o cansaço e afugentam as visões do vasto mato, que de braço dado com a via que mais une Moçambique, engole tanta palhota e tanta gente. Gente que, em oposição à paupérie nauseabunda e infértil dos arredores de Maputo, aqui é pobre, mas não miserável. O povo veste-se de humildade, e à semelhança de Portugal nos anos 60 em muita bonita aldeia, na machamba (horta) se trabalha e da machamba se vive.

Em Inhambane, na cidade, também o traço de limpeza distancia-a da capital. E embora tudo o resto se mantenha, a rasa baía cheia de amêijoa, flamingo e mangal enche a cidade, na qual de tudo se encontra sem ser preciso nenhum prédio ou arranha-céu.

O preceito policial mantém-se e, para além da corrupção à entrada de cada vila, aquando da observação das velocidades pela polícia de trânsito, de branco, eis que os PRM (polícia republicana), de cinza baço, não abandonam a frente da sede da FRELIMO da cidade, nem os seus compadres de verde-tropa, da polícia municipal, fiéis companheiros da conversa fiada.

Mas falemos de coisas que nos tiram o fôlego pela positiva: a praia da Barra, do Tofinho e do Tofo. São tipo droga, da que vicia: a água na qual nunca custa entrar, o areal tão fino que assobia, o espaço que vislumbra o deserto, o vento que nunca deixa o sol queimar demais, e o som do mar que nos acorda ou nos deita de tão perto que está da varanda. Aqui da praia e na praia, tudo acontece: vendem-se rádios feitos de coco e pulseiras de rabo de elefante, assim como se negoceia o peixe serra de 20kg e o polvo cabeçudo apanhado no dao (barco típico) de manhã. O importante é ser assertivo no ‘não’, quando o décimo quarto vendedor já não vende nada que queiramos ao ponto de apenas ‘pedir’.

‘Papás’ e ‘mamãs’ locais – por vezes descalços por convicção em hábito ainda tão incomum – preenchem os gaps linguísticos e fortalecem as ligações entre o investimento sul africano e os turistas aventureiros, sempre ansiosos por mergulhar, surfar ou participar na banga (festa). E se na sexta, o modo festivo corre nas veias moçambicanas logo a partir das 15 horas, da mesma forma, quase autónoma, o domingo dita o ritual sagrado de louvor ao Senhor, quer o de quatro sílabas quer o de três, que carece da melhor roupa e de todo o tempo da manhã.

Por fim, e já em tom de regresso, conhecemos Laura, a filha do mecânico que muda pneus derretidos pelo asfalto ardente. Irmã mais velha de Salézio e de Amélia, ainda bébé, Laura lembra Luís, amigo feito na praia, no que toca à paixão pela brincadeira. Tanto um como outro, seja com uma câmara de ar já descartada no mato, seja com um carro feito de arame e latas da premiada M2 (cerveja moçambicana) no areal, não sabem o que é ‘estar parado’, assim como muitas outras coisas. Sabem que o mar é divertido e que os bebés são fofinhos, mas quando perguntado, 6×2 é 14 e o seu nome escrito no chão não é familiar. E, vióla, eis um dos desencantos de Moçambique – a criançada perdida e esquecida por aí.

E assim, acabamos como começámos, com chuva a abençoar, não só esta terra que tantos cheiros dá às histórias, mas também esta viagem desconcertante, que de tanto choro esvazia a alma para logo a seguir poder enchê-la de novo.’

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*Obrigado, Moçambique (Khanimanbu, Moçambique)

Maputo
 Moçambique (capital)
 Português
1 178 116 hab. (2007)
 Metical (MZN)
 GMT+2
Europeias, 2 pinos
+258
112
O clima é tropical, sendo muito quente durante todo o ano. No entanto entre maio e outubro o clima é mais seco contrastando com o período muito húmido com fortes chuvadas registado entre novembro e abril.

O visto de entrada em Moçambique é obrigatório e custa cerca de €40 

Não há vacinas obrigatórias, no entanto aconselha-se a utilização de repelente para evitar as picadas de mosquitos que transmitem doenças como a malária

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