A Última Ceia tinha tudo para morrer, mas vive há mais de 500 anos

Leonardo Da Vinci pintou A Última Ceia na parede de um refeitório. Violência, intempéries e descuido não foram capazes de acabar com ela

Pintura da Última Ceia de Leonardo Da Vinci a ser fotografada por vários turistas em Milão Itália
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Habituámo-nos a olhar para Leonardo Da Vinci como um dos grande génios da história e a Última Ceia é uma das obras que ajudam a construir esta imagem. Uma viagem a Milão só fica completa depois de uma passagem pelo refeitório do Convento Dominicano da Igreja de Santa Maria delle Grazie, o local onde este artista italiano deixou uma das suas obras primas. Deixou-a lá, mas foi preciso que a história se encarregasse de a guardar apesar de todas as adversidades por que passou. Mas já lá vamos.

Ver a Última Ceia pode ser uma tarefa hercúlea. Não basta chegar, ir à bilheteira e comprar um bilhete para entrar. Nem sequer há bilheteira física, o acesso deve ser reservado através de um site e é bom que essa reserva seja feita com uma antecedência razoável. Os lugares são disponibilizados com dois meses de antecedência e esgotam muito rapidamente, por isso mais do que planear visitar esta obra quando for a Milão, planeie apenas ir a Milão quando souber que há entradas disponíveis.

Estamos prestes a visitar um pedaço da mais importante história da igreja e da humanidade, por isso compreende-se que as regras sejam apertadas. No refeitório só entram grupos de 15 pessoas de cada vez e o tempo é cronometrado. Somos conduzidos por um corredor até encontrarmos uma porta onde esperamos ao lado de todos os turistas que vão fazer a visita connosco. À hora marcada, a porta automática abre-se e o cronómetro começa a contar, temos pouco mais de 15 minutos para olhar para o rosto de cada um dos doze apóstolos que partilhou a Última Ceia com Jesus Cristo.

Ludovico Sforza era duque de Milão e quando mandou fazer esta igreja tinha como objetivo criar um lugar para o túmulo da família. Pediu ao arquiteto Donato Bramante que a concebesse, era um dos melhores da época e foi mesmo chamado, anos mais tarde, para participar na construção da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Terminadas as obras, era preciso decorá-la e Leonardo Da Vinci foi chamado para olhar para o refeitório. É quase direta e previsível a ligação entre a última ceia de Jesus Cristo e a zona onde os religiosos iam almoçar e jantar. Mas Da Vinci não era um artista de vistas curtas e apesar da óbvia ligação, decidiu inovar em todos os aspetos.

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Durante os mais de três anos que demorou a conceber esta pintura, o artista usou uma técnica que não era comum na época, recorrendo a gesso e pintando a parede como se de um quadro se tratasse. A escolha permitiu que o trabalho pudesse ser feito ao longo de mais tempo e com muito mais detalhe. Os rostos dos doze apóstolos, bem como o de Jesus Cristo foram várias ensaiados centenas de vezes em rascunhos que hoje podem ser visto na Pinacoteca Ambrosiana.

Com 4,60 metros de altura e 8,80 metros de largura, a obra prima de Leonardo Da Vinci é imponente e para além da técnica, oferece mais inovações que romperam com o status quo da época. Se é verdade que a representação da Última Ceia foi amplamente explorada por vários artistas, também é verdade que Da Vinci ofereceu uma visão completamente diferente.

Apesar de os textos bíblicos não o referirem, até aqui os artistas representavam Judas numa das extremidades da mesa, muitas vezes com ar carregado e roupas negras, fazendo intuir de forma direta que ele era o traidor a quem Cristo se referia. Da Vinci foi mais fiel aos textos sagrados e alinhou Judas como qualquer um dos outros apóstolos, junto a Cristo e sem qualquer característica que faça dele o mau da fita nesta cena.

O facto de esta obra ter passado por vários períodos da história deu-lhe várias vidas e várias relevâncias. É provável que tenha sido quase desprezada em algum deste tempo, quando percebemos que os monges dominicanos abriram uma porta mesmo em cima da zona final da pintura. Mas se hoje a encontramos nas casas de muitos católicos percebemos que ela é primordial não só para esta religião, como para a definição da sociedade católica.

Não sendo um quadro que se guarda num bunker durante uma guerra, a Última Ceia teve que passar por todos os conflitos sem sair do lugar e protegendo-se das formas que eram possíveis. Durante a Segunda Guerra Mundial foram construídos diques de areia que foram elevados dos dois lados da parede para que conseguisse resistir aos bombardeamentos. Conseguiu sobreviver para contar a história, apesar de o refeitório ter ficado sem telhado e a ter deixado exposta ao exterior ao longo de vários anos. Antes disto, a história também conta que as tropas de napoleão usaram o convento como quartel durante a revolução francesa e há quem diga que a parede onde está a obra de Da Vinci foi usada para fazer tiro ao alvo

As características que deram à Última Ceia uma vida atribulada, são as mesas que permitiram que Da Vinci não saísse de Itália com ela, da mesma forma que fez com outras obras quando saiu do país. A Mona Lisa é um bom exemplo disso mesmo.

Terminados os 15 minutos que nos dão para conseguirmos perceber todos os contornos desta obra prima de a Vinci, os seguranças que zelam pelo antigo refeitório deste convento dominicano, entram em ação. A porta dos fundos já está aberta e é hora de sairmos para deixarmos o fresco respirar até ao próximo grupo de visitantes que já está atrás da porta de vidro à espera para entrar.

A Última Ceia
Milão, Itália (Piazza di Santa Maria delle Grazie, 2)
 adultos: €15 | jovens: €2
terça a sábado: 8h15 às 19h | domingo: 14h às 19h

Os bilhetes para visitar a Última Ceia devem ser comprados através deste site. As vagas são disponibilizadas de dois em dois meses, pelo que este é o período que deve ter em conta para a antecedência de compra. Os bilhetes podem ainda ser comprados por telefone (+39 02 92800360) ou email (cenacologruppi@adartem.it).

A estação de elétrico mais próxima do local onde está A Última Ceia é S. Maria delle Grazie.

A visita dura exatos 15 minutos.
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