ViagensLugaresTeatro alla Scala. A melhor ópera do mundo teve várias vidas. Verdi deve-lhe a dele
Camarotes do Teatro Alla Scala de Milão

Teatro alla Scala. A melhor ópera do mundo teve várias vidas. Verdi deve-lhe a dele

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A única forma de conhecer um teatro é assistir a um espetáculo na sua plateia, dirão uns. Outros não terão dúvidas de que só se fica a conhecer de forma verdadeira as tábuas de um palco quando são pisadas durante uma atuação. Mais rigorosos ainda são os que acreditam que a essência de uma sala de espetáculos só pode ser apreciada a partir do topo da teia ou do fundo do fosso da orquestra. Era bom que pudéssemos ter todas estas experiências no Teatro Alla Scala. E podemos, mas vamos precisar de ser muito organizados para isso, por isso nesta viagem a Milão o melhor é reservar umas horas para visitar o Museu deste que é considerado por muitos o melhor teatro de Ópera do mundo.

Quando chegamos à bilheteira há uma pergunta obrigatória que devemos dirigir a quem nos vende os acessos: Há algum ensaio a decorrer? Se a resposta for afirmativa, entra em cena a segunda pergunta: Quando é que acaba?

Os ensaios no palco do teatro impedem uma das melhores partes da visita ao museu: a entrada num camarote aberto para a plateia, a partir do qual é possível sentir o ambiente da sala, sem ser necessário assistir a um espetáculo. É aqui que tudo começa e é aqui que temos o clímax desta visita. À nossa frente vamos ver os tons de vermelho e dourado que dominam a plateia, os camarotes e o grande pano que abre no início de cada apresentação e se fecha no final.

São mais de dois mil lugares e quase todos estão virados de frente para o palco. Muitos camarotes, alinhados em forma de ferradura, não permitem que quem os ocupa veja as atuações de forma nítida e sem estar desconfortavelmente sentado na cadeira, mas esse é o objetivo. Mais do que ver um espetáculo, no auge dos anos XIX vinha-se ao Teatro para que as pessoas se vissem umas à outras. Quem está na plateia tem os melhores lugares para ver a atuação, mas também para ver quem veio.

Hoje vemos esta forma de estar como um desperdício. As pessoas que vinham para se mostrar certamente perderam o melhor de atuações tão deslumbrantes de compositores como Verdi, Toscanini e Puccini, tenores e sopranos como Maria Callas, Luciano Pavarotti, Plácido Domingo, Teresa Berganza, Joan Sutherland, Montserrat Caballé e José Carreras e bailarinos como Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev. Todos pisaram estas tábuas.

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Precisamente Verdi teve no Teatro Alla Scala o seu palco para o mundo. Foi aqui que se estreou em 1839 e foi também neste palco que mostrou o génio de Nabucco, uma ópera em quatro atos que tem a sua história contada no Museu. Mas não é a única. Verdi é um dos grandes protagonistas deste espaço, com especial destaque na sala quatro, onde podemos observar um retrato de Achille Scalese, onde Verdi surge com ar severo . De cada lado da imagem estão duas grandes mulheres que acompanharam o compositor: Margherita Barezzi e Giuseppina Strepponi.

O Museu do Teatro Alla Scala ajuda a contar a história conturbada deste ícone mundial e apesar de ser riquíssimo e muito importante na preservação de vários elementos associados à música, ao teatro e à ópera, a verdade é que podia nem sequer existir. Tudo começou quando o antiquário Jules Sambon pôs à venda a coleção que tinha de artefactos ligados ao teatro e várias figuras ligadas à cultura milanesa decidiram que comprá-la o ponto de partida ideal para começar um museu. Mas havia uma dificuldade: reunir mais de meio milhão de euros para fazer a compra.

O processo demorou algum tempo, mas o estado italiano e 50 mecenas conseguiram reunir a verba. Nessa altura levantou-se outro problema: Jules Sambon já tinha fechado o negócio com outra pessoa, nada mais nada menos do que JP Morgan, um dos homens mais ricos e poderosos do mundo. Começa outra batalha: convencer o magnata a abandonar a corrida pela coleção. Missão bem sucedida.

As dificuldades para erguer o museu podem muito bem ser comparadas com a vida atribulada que o próprio teatro teve ao longo da sua história. Em 1776 um incêndio com contornos pouco claros destruiu completamente o Teatro Ducale e Milão ficou sem sala de espetáculos. Neste momento entra em cena a imperatriz Maria Teresa da Áustria que manda construir o novo teatro no local onde antes existia a Igreja de Santa Maria alla Scala.

As Guerra contam sempre uma página negra na história de vários pontos de interesse de várias cidades. O Alla Scala não é diferente e também na Segunda Guerra Mundial foi parcialmente destruído pelos bombardeamentos. Reergueu-se apenas três anos depois e só voltou a fechar em 2002 para ser restaurado. Em 2004 é reinaugurado e apesar da idade torna-se numa das salas de espetáculos mais modernas do mundo e com muita polivalência. Em todas as inaugurações é a L’Europa Riconosciuta de Salieri que abre as hostes.

Museu do Teatro alla Scala
Milão, Itália (Piazza Scala, 2)
 adultos: €9 | jovens e idosos: €6
terça a domingo: 10h às 18h

A paragem do elétrico Teatro Alla Scala é a mais próxima do museu

Guarde pelo menos duas horas para poder visitar o museu e observar a plateia do teatro a partir de um camarote.
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Mestre em Ciência da Informação, estudei em Coimbra e Madrid. Trabalho atualmente em Lisboa. Tenho o pequeno sonho de conhecer o mundo e contar ao mundo as maravilhas que tem. claudiapaiva@w360.pt