A capital dividida

De Nicósia a Larnaca houve tempo para conhecer a história de um país dividido, mas acolhedor e com gatos, muitos gatos.

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A Europa estendia-se, de novo, diante de mim. Estava num dos extremos dessa divisão comum a que um dia apelidámos de “Velho Continente”. No outro extremo, Portugal.

O Chipre é um país curioso e rico em História (e com muitos gatos, mas já lá vamos). Considerada a “Ilha do Amor”, pois, segundo reza a lenda, a ilha serviu de presente do Imperador Marco António a Cleópatra e foi o berço da deusa grega do amor, Afrodite, foi fácil deixar-me apaixonar por este pedaço de terra no canto do Mediterrâneo entre a Europa, a África e o Médio Oriente.

Tinha uma especial curiosidade por este país, mais especificamente por Nicósia, a única capital do Mundo dividida entre duas “nações”. A norte, a República Turca do Chipre do Norte, um país que não é reconhecido pela ONU e que resulta da guerra civil do Chipre e a posterior ocupação turca em 1974 e, a Sul, a República do Chipre. A cidade está assim dividida em duas partes, pela chamada “linha verde”, sendo esta separação controlada por uma missão de Paz da ONU que se encontra na ilha desde a dita ocupação. Esta separação também se reflete na população, originando uma divisão étnica. A população turca cipriota,  do lado norte, e a população grego cipriota, do lado sul.

A passagem entre ambas as partes faz-se por check points devidamente criados para o efeito onde se procede, em ambos os lados, ao controlo dos passaportes. Foi uma experiência interessante passar, a pé, por um desses pontos e observar buracos de tiros nas paredes.

Passei dois dias em Nicósia, onde pude explorar e sentir ambas as partes da cidade e observar que, sendo uma capital cheia de história e marcada por sucessivas invasões ao longo da sua existência, é possível ver uma cidade em constante construção e modernização, e onde começam a surgir novos edifícios e a rede de transporte público (autocarros exclusivamente), é organizada e pontual.

Foi também uma oportunidade ainda para provar a gastronomia tradicional (com muitas influências da gastronomia grega e do Médio Oriente) e, já no final, experienciar andar à boleia.

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Há cerca de dois anos tinha andado a viajar à boleia pela Europa com um amigo. Contabilizámos 8 países e mais de 40 boleias numa experiência que me marcou e queria voltar a experimentar. Essencialmente acho que, para além de ser uma forma de economizamos algum dinheiro, é, acima de tudo, uma excelente oportunidade de nos conectarmos com a vida local e conhecermos novas pessoas.

Assim, escrevi num papel velho “Larnaca”, fui para uma estrada de acesso à autoestrada, estiquei o polegar e, passado não mais que 20 minutos surgiu a Antonia e mais duas amigas, que tinham ido passar o dia a Nicósia e regressavam a Larnaca. Foi quase uma hora bem passada onde tive oportunidade de perceber um pouco qual a percepção delas sobre a questão da divisão do Chipre e se sentem alguma tensão entre ambas as partes, ao que elas responderam que por vezes sim, e onde também pude falar um pouco de Portugal, do qual já tinham ouvido falar muito bem a propósito do Web Summit!

Em jeito de conclusão, voltemos então aos gatos. Estão por toda a parte. Intrigado sobre a  razão de existirem tantos gatos no Chipre, após uma breve pesquisa apercebi-me de estes serem uma das presentes preocupações do país, que não consegue controlar a população felina na ilha, que, segundo reza a lenda foi introduzida na ilha para controlar uma população de cobras que ali abundava.
São meigos e, uma grande parte deixa que lhes façam festas.

Por curiosidade, estudos arqueológicos comprovaram a existência de gatos no Chipre há mais de 9 mil anos, tornando-se estes os primeiros animais de estimação de que há registo.